Feliz dia para a mulher dos outros, pra minha, não.

O que tenho a dizer nesse 8 de março:
Que é fácil dizer “Feliz Dia das Mulheres”, todo mundo sabe.
É fácil defender “as mulheres”, difícil é reconhecer isso naquelas que estão ao seu redor.
Deixar de ser o cara acomodado que espera a esposa dizer o que tem que ser feito para a casa ficar arrumada, não.
Falar de modo respeitoso sobre as mulheres que o rodeiam – as íntimas e as desconhecidas, não.
Promover uma mulher no trabalho, mesmo que ela tenha filhos, não.
Deixar de achar que todas as coisas ligadas ao cuidado do corpo são obrigações femininas, não.
Faltar ao trabalho para ficar cuidando do filho, ao invés de atribuir isso à mulher, não.
Não dividir as mulheres entre “comíveis” e “casáveis”, quase impossível.
É fácil defender “as mulheres”. Difícil é mudar o comportamento machista que nos rodeia no cotidiano.
É educar seus filhos para que sejam companheiros, parceiros, e não mero “ajudantes”. É educar suas filhas para que sejam livres em suas escolhas – da roupa à sexualidade, passando pela questão do casamento e da vontade de parir.
É entender que ao ofender, rebaixar, humilhar uma mulher que depende de você, você a faz se sentir o pior dos seres humanos. E me desculpem, homens, mas não é o mesmo para vocês.
Dizer que somos delicadas, para esconder que somos “fracas”, dizer que devemos nos preocupar mais com nossas aparência para manter o casamento, depois nos chamando de fúteis.
Deixar de correr, de ter “medo” de mulheres que são inteligentes, empoderadas, conscientes de si e donas de seu corpo. Deixar de julgar aquelas que estão além daqueles que são machistas e dominados.
Que as pessoas tomem consciência de que ainda há muitas e muitas mulheres que são abusadas, violentadas e mortas por causa de seu machismo ridículo. E quem bate, quem ofende, quem massacra são pessoas que também tem FB, que também compartilham foto de “feliz dia das mulheres” e que são incapazes de enxergar sua PRÓPRIA esposa como digna de recebimento deste mesmo trato dado às outras.
Não desejo feliz dia das mulheres. Desejo um Despertar da consciência sobre as condições das mulheres. e ponto.

Sobre a alma feminina

Já faz algum tempo que escrevi este texto sobre a alma feminina. Mesmo tendo passado alguns anos, ainda concordo com o que escrevi…

O que significa ser uma mulher hoje em dia? A resposta varia muito conforme a idade desta mulher, mas há uma característica que exigimos de todas – que sejam independentes. A resposta para a pergunta não parece ser muito difícil se não colocarmos tal palavra. A pergunta passa a ser: O que significa, hoje em dia, ser uma mulher – acima de tudo – independente?

Há alguns anos, talvez ainda na primeira metade do século passado, nós não tínhamos muitas opções. Ser mulher significava, na maioria dos casos, ser casada, cuidar de um lar e dos filhos, ter cuidado especial com o marido e, aos poucos, com os mais velhos da família. Depois da revolução da pílula, do voto feminino, e de mais alguns hippies e revoluções no caminho, uma mulher precisa ser mais do que isso. O que precisamos ser? O que significa ser independente?

Queimamos nossos sutiãs, escolhemos não ter filhos, saímos dos casamentos assim como entramos, rasgamos os vestidos de noiva, pegamos no batente, acordamos cedo para trabalharmos fora de casa, moramos sozinhas. Tudo isso é independência? Não precisamos nos casar virgens, não precisamos nos casar. Não precisamos tolerar maridos rabugentos, não precisamos de maridos. Não passamos mais a noite toda acordada por causa das crianças, não precisamos de crianças. Vamos votar todos os anos pares, apitamos jogos de futebol (temos times femininos de futebol, ainda que ninguém os leve a sério). Bebemos cerveja, batemos massa de cimento, falamos sobre sexo, viajamos para qualquer lugar do mundo sem nos preocupar com satisfações. Tudo isso é independência?

Volta-se à questão: o que significa ser mulher? Ser mulher significa tudo isso ou o contrário disso? O que somos e para quem?

A alma feminina é delicada. Todas as mulheres são delicadas – as que vestem rosa e as que vestem preto, as com rímel nos olhos e as sem, as que cruzam as pernas ao se sentarem e as que dão gargalhadas altas. A alma feminina é delicada porque torna tudo muito cuidadoso. As mulheres, queiram ou não, têm o poder do cuidado. Antes não tínhamos muitas opções, cuidávamos da casa e de tudo que estivesse dentro. Hoje temos a opções de cuidarmos de nós mesmas.

A alma feminina é leve. Onde quer que estejam, mulheres gostam de leveza. Não a leveza das coisas materiais, mas das situações que vivem. Estejam elas em uma casa escura, com objetos estranhos, o que as torna felizes é a leveza do que vivem neste ambiente. Ser uma mulher feliz é estar leve, é viver leve, como uma folha que, lentamente, cai de uma árvore alta. Somos esta folha caindo.

A alma feminina é aberta, como um livro que se deixa ao lado para continuarmos lendo dali a poucos minutos. Cada uma tem sua maneira de ser, mas a espontaneidade faz parte desta abertura. Ser espontânea é manter nossa alma aberta. Estamos sempre abertas para sermos atenciosas com os outros, para falar sobre tudo o que soubermos, para rirmos da vida. Cada vez mais, estamos abertas para nós mesmas.

A alma feminina tem força. Enfrentamos as dores de maneira diferente da dos homens. É como se, por mais que doa, passássemos por cima daquilo que nos machuque. Deixamo-nos calejar. Engolimos seco. Com leveza, sentamos e choramos por aquilo que nos faz sofrer. Mas há algo que nos faz levantar, de maneira mais delicada ainda, e nos faz continuar.

Entretanto, nos dias atuais, muitas mulheres precisam negar todas essas características que nos tornam especiais – e que fazem com que os homens nos olhem com tanto carinho. Não percebem que a independência que declaram (os sutiãs, as pílulas, o divórcio, etc.) é o que as fazem sentar sozinhas em algum lugar perdido, sem entenderem o que acontece. Choram, mas negam o motivo pelo qual choram. Tornam-se pesadas porque têm medo de serem delicadas e não serem mais respeitadas. Tornam-se fechadas e deixam de ser espontâneas para que as pessoas acreditem no que falam. E aí passam a ser fracas.

Não é o fato de não termos mais que nos casar, termos filhos, votarmos ou outras muitas coisas que nos tornam independentes. O que nos torna mulheres independentes é a maneira como podemos fazer nossas escolhas. Podemos nos casar, ou não, podemos ter filhos, ou não, cuidar de outras pessoas, usar sutiã e não tomar pílulas. Ainda sim seremos mulheres independentes, porque o que nos diferencia é a maneira com que fazemos tudo isso. É isso: temos o poder da escolha e, ainda melhor, de fazermos tudo isso do modo mais feminino possível. Isso não é maravilhoso? Por que precisamos nos negar de maneira tão cruel? Se antes eram os maridos e os pais que nos maltratavam, hoje somos nós mesmas ao negarmos aquilo que nos é característico.