Um estranho no próprio ninho

– Ou “O meu problema com os posers”

Não dá para dizer que sou totalmente rock’n roll, porque sou bem eclética – da música clássica à MPB, passando por todo tipo de música estranha de vários lugares do mundo, chegando ao jazz antigo, ao blues e, finalmente, ao rock’n roll. Talvez por isso, o termo poser não seja tão adequado. Mas vamos ao que interessa.

Se há um lugar em que sempre me senti bem são os alternativos – ambientes em que toca rock, principalmente. Quem acompanha meu blog sabe o quanto eu tenho dificuldade em ser alguém que está sempre linda, escovada, maquiada, soberana. Por causa disso, sempre que vou a ambientes em que as mulheres estão muito bem arrumadas, me sinto mal. Há uma voz interior que me hostiliza o tempo todo, fazendo com que eu me sinta a pessoa mais feia e deslocada da face do planeta. Por isso, enfatizo, sempre me senti bem em ambientes mais alternativos – parece que ninguém está ali para julgar se você está maravilhosamente bem vestida ou se é uma gata, gostosa que chama atenção do alto do seu salto alto.

Já faz algum tempo que venho percebendo nesses ambientes – antigamente, mais fechados àqueles que realmente gostavam de rock – uma “invasão” de pessoas – principalmente, mulheres – que não parecem pertencer a esses lugares. Eu chamo essas pessoas de posers, mas sei que não é o termo exato. Hoje, especificamente, fui a um pub irlandês e me deparei com dezenas de mulheres tão arrumadas, tão engomadas, que me senti um estranho no próprio ninho. Saí de casa tão animada para ir a um ambiente considerado tão “meu” que, quando lá cheguei e me deparei com pessoas diferentes, fiquei muito, muito incomodada.

No início, sofri. Depois, desencanei e resolvi curtir a noite com meu marido – eu estava lá para ser feliz, afinal de contas. Entretanto, me dei conta de várias coisas entre a etapa do sofrimento, querendo esganar aquelas mulheres, e ser feliz e curtir cada música da banda que tocava.

Quando percebi que eu não estava ali para competir com nenhuma delas, já que estava com o amado, comemorando aniversário de casamento, e elas estavam ali na caça, procurando justamente o que eu já tinha, fiquei mais tranquila. Daí percebi algo sinistro: o problema não eram os posers – o problema era eu.

Com que direito eu tomo aquele lugar como meu? Será mesmo que, justo eu, que defendo a liberdade individual, a pluralidade, tenho que pensar assim? Por que outras pessoas, diferentes de mim, não podem frequentar os lugares que querem só porque eu tenho uma visão de mundo diferente? É difícil inclusive escrever sobre isso, porque elas realmente me incomodam. Mas, seguindo a linha de raciocínio que defendo tanto, essas pessoas têm tanto direito de estar ali quanto eu. Aí, elas deixam de ser um problema e quem passa a sê-lo sou eu, porque me torno preconceituosa e ajo com a mesma xenofobia quanto alguns países estrangeiros.

Se eu tenho inveja dessas pessoas, se eu tenho problemas de auto-estima, se não consigo me sentir bem comigo mesma, isso não pode ser justificativa para eu ser tão hostil com o outro. Até porque são atitudes assim em que aparecem a homofobia, o preconceito, o racismo, os conflitos religiosos – a gente tira do outro o direito de ser quem ele é, justamente por serem distintos de nós.

Quando me dei conta disso, fiquei mais tranquila. Não importa quem estava lá. Não importa se eram roqueiros ou pessoas em busca de diversão em um lugar bacana. Não importa. Elas que sejam felizes, do jeito que quiserem. Eu precisava (e preciso) ser feliz com quem eu sou, onde estiver, independente de quem esteja por ali. Justamente para eu não ser mais uma nessa multidão tão extremista e faccionária que existe por aí.