O dragão nosso de cada dia

Resolvemos comprar um lindo cachorrinho. Ou melhor, cachorrinha. Mas essa história começou muito antes de tomarmos essa decisão.

Meu filho mais velho, com praticamente 6 anos, se interessou pela história de São Jorge, assistindo ao Sítio do Pica Pau Amarelo e escutando a música do Seu Jorge. Expliquei para ele a lenda e, principalmente, o significado: todos os dias enfrentamos um dragão. Com isso, passamos a nos perguntar, à noite, antes de dormir, qual tinha sido o dragão que enfrentamos naquele dia: dividir brinquedos com a irmã, lavar a louça, machucar o dedinho, levantar cedo, ter paciência, etc.

Eu não sou muito fã de cachorro, sou mais adepta aos gatos. Ainda assim, brinco, faço carinho, respeito-o quando encontro um e sempre incentivei isso nos meus filhos. Mas meu filho desenvolveu um verdadeiro pavor aos cães: morre de medo, tanto que nem pôr a mão em filhote ele conseguia. Já faz tempo que isso me incomoda, principalmente, quando ele dizia  a alguém “não gosto de cachorros”. A solução que encontramos foi ter um cachorro.

A nossa LINDA e fofa bola de pelo, Lola

No princípio, ele não gostou da ideia. Aí mostrei foto de filhotinhos e tudo mudou: começou a curtir a ideia, passamos a visitar pet shops que tinham filhotes para que nos acostumássemos com a ideia e, três dias atrás, compramos uma pequena Shih Tzu, nomeada de Lola. Na loja, ele não queria pôr a mão. Em casa, pôs a mão, brincou, estava empolgadíssimo. Ontem, segundo dia, a coisa mudou. Ele voltou a ter medo, punha a mão, mas não estava cheio de amizades. Precisamos conversar.

Nesta conversa, falamos sobre os nossos medos, as nossas dificuldades, sobre como as enfrentamos, sobre coragem e covardia. Esse é o seu dragão, não do dia, mas acredito que da semana: enfrentar seu medo de cachorro.

A pequena Lola tem nos divertido e ensinado muito também. Uma pequena bola de pelo, fofa e deliciosa. (Peraí que vou lá limpar um xixi e já volto)

O que faltou explicar para meu pequeno guerreiro é que o dragão que eu mais enfrento todos os dias sou eu mesma, algo muito complexo para uma criança de 6 anos…

Anúncios

A injeção. (Ou “a falsa corajosa”)

Sempre fui eu que levei meus filhos para tomarem vacina, fazer inalação, tomar injeção e outras dessas coisas em que precisamos respirar fundo e pensar no bem maior que estamos proporcionando. E sempre me senti super tranquila e confiante.

Respira fundo!

“Filho, vai doer um pouco, mas passa e, se você tiver vontade, chore…” Digo o mesmo para os dois, desde bebezinhos. Acho que foi isso que fez com que, Cauê, aos quase 5 anos de idade, não chore com injeção nenhuma. Nem para tirar sangue. Ele é amado, idolatrado em cada posto de saúde que passa… “Ai, devia ter filmado, porque não dá para acreditar” dizem as enfermeiras, orgulhosas do menininho sorridente. Até a Nina, que tem 1 ano, chorou quase nada na vacina da semana passada.

Daí que meu pequeno corajoso é muito alérgico. Tanto que tem várias restrições alimentares e, principalmente, tem a famosa super alergia à poeira. Daquelas que já tivemos que correr na madrugada para o bonito tomar adrenalina, com a garganta fechando. Então, para tratar dessa fofa, fomos a uma alergologista – a médica mais fofa e carinhosa que já conheci – e decidimos começar um tratamento com vacinas. O tratamento é longo, não muito barato, mas toda tentativa é um passo para o bem-estar do pequeno.

A médica me explica: “nos primeiros dois meses, é uma vacina por semana. Depois, uma a cada 14 dias, mais adiante, uma a cada 21 dias, etc. Se você quiser, você pode trazê-lo aqui ou pode aplicar a vacina em casa.” Respondi, toda cheia de coragem, que eu mesma, então, aplicaria a vacina em casa. Porque, convenhamos, em uma cidade grande, não é lá muito fácil ficar rodando com duas crias a tira colo, não é mesmo?

Ai, ai… Hoje foi o dia da primeira vacina em casa. Amigos, estou tremendo até agora. Como se cria coragem para ser a pessoa que vai colocar uma agulha – A-GU-LHA (que, por mais que jurem que é a menor, especial para crianças, é absurdamente grande para uma mãe da área de humanas) – no seu próprio filho? Respirei fundo. Coloquei o moleque ao meu lado. Fiz um teste antes de como eu faria, mas sem a agulha. Respirei fundo. Disfarcei a tremedeira. Cauê, sentindo meu nervosismo, também ficou nervoso: “Tô com medo, mamãe” (Buáááááá, eu também, filho, vamos chamar a moça? Buááááá) “Vai dar tudo certo, meu amor” sorrio, amarelo. Respiro fundo, pego a pele e, plum!, a pele é um pouco mais “densa” do eu imaginava, aplico a vacina. Cauê reclama de dor. “Pode chorar, meu amor, a gente sabe que dói um pouquinho.” Cauê chora. Eu não posso chorar. Tenho que mostrar para ele que sei o que estou fazendo (oi?). E venho chorar aqui…

Buááááááá. Gente… toda semana vou ter que ter essa coragem!!! Buááááá. Como? Como? Será que a gente se acostuma?