Incoerência

Olha a incoerência.

Contratei uma babá para vir aqui em casa, uma vez por semana, ficar com meus filhos. A proposta era para que eu tivesse mais tempo para mim mesma ao menos 1 dia na semana. Ao contrário do que eu esperava, ao invés de gozar do dia livre, passei a aproveitá-lo para limpar a casa com mais afinco, já que não tenho uma ajudante de limpeza. Não é uma incoerência, já que eu faço isso (limpar) todos os dias?

A sensação que tenho é que, por mais que eu fale, por mais atitudes que eu penso tomar para manter-me sã diante desta vida de dona-de-casa, mais eu me prendo à rotina doméstica. Busca por emprego, tentativas de escritas de contos, procura por alunos, contratar babá, contratar ajudantes… cada semana arrumo uma “mudança” para que eu consiga fazer coisas para mim. Na prática, o que há é que não consigo sair deste ciclo. Continuo fazendo o de sempre. Não sei se é porque ainda me sinto muito ligada aos meus filhos pequenos, não sei se é medo de enfrentar uma rotina de trabalho novamente (que acabaria por me distanciar um pouco dos pimpolhos), não sei se é medo de enfrentar uma nova área de atuação.

O que sei é que estou em um ciclo que não consigo sair. Agora que me dei conta, será que consigo mudar a direção da roda?

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Sobre trabalhar, pedir e mendigar

Decidi voltar a trabalhar. Minha pequena já está quase andando, as contas também, assim como a minha necessidade interna em voltar àquela dinâmica boa que não tenha como centro casa, roupas, panelas e crianças. Essas continuarão, mas não serão mais únicas.

Daí que decidi mudar de área. Decidi que quero como profissão algo que eu me faça escrever. Sempre, todo dia. Formada em Letras, 7 anos dedicados à sala de aula, não tenho experiência alguma na área, exceto pelo blog. Só muita vontade mesmo de trabalhar. Então, por falta de um “networking”, ou um Q.I. (vulgo “quem indica”), coloquei meu currículo e minhas pretensões em vários sites de emprego.

Semana passada, um ou dois dias depois do cadastro, recebi um telefonema de uma empresa. Queriam marcar uma entrevista, mas não sabiam me dizer para que vaga ou qual o salário. Somente que queriam fazer uma entrevista comigo. Nunca participei desses processos, sem saber exatamente o que encontrar, marquei uma hora e fui. Linda, feliz, sem esperanças, mas cheia dessa energia boa de “algo está acontecendo”.

A gente sempre desconfia quando chega a um lugar e ele é bem diferente do que tínhamos imaginado. Uma sala pequena, abarrotada de pessoas diferentes umas das outras, com o ar-condicionado quebrado e nenhuma janela, me deixou com aquela pulga. Depois de um vai-e-vem de pessoas entrando e saindo de outras salas, sempre fora da ordem de chegada e com um atraso absurdo, um rapaz perdeu a paciência e foi tirar satisfação com a secretária. Um minuto depois, foi chamado. Mais dois minutos, ele voltou da parte interna revoltado, falando bem alto o quanto aquilo era uma enganação e uma perda de tempo. Todos os que estavam na salinha deixaram seus silêncios e passaram a conversar. Nenhum sabia a que vaga concorria, tinham cadastrado o currículo na internet, assim como eu, e foram chamados em seguida. Todos ansiosos, esperançosos, gastando seu dia por aqueles minutos. A minha hora também passou, também fui pedir para ser atendida – a secretária quis marcar a entrevista para outro dia, mas eu recusei – e logo fui chamada.

Não entendo de RH. Não entendo de empresas que recolocam as pessoas no mercado. Por isso, segui o protocolo e conversei com a funcionária que me chamara. Aquela era uma empresa que presta serviços a empresas de RH. Se a vaga surgisse, meu currículo seria encaminhado. Não era uma entrevista propriamente dita. Ela pouco perguntou, me falou da sua fome e do cansaço. Me pediu que eu enviasse uma carta de apresentação para a possibilidade de vagas que aparecessem. Quando saí, as pessoas do hall me perguntaram se ela havia me cobrado alguma coisa. Não, até porque havia um formulário que usava termos como “custo zero”. Pois outra moça acabara de sair revoltada por lhe cobrarem e aceitarem, inclusive, cartões de crédito.

A sensação que tive? Um conjunto de oportunistas querendo tirar dinheiro de pessoas que querem trabalhar. A impressão é que pedir emprego e mendigar tornaram-se sinônimos (e, agora pouco, procurando no dicionário Houaiss, descobri que podem ser). Algumas dessas empresas de emprego são muito irresponsáveis! Como é que elas fazem com que as pessoas percam tanto tempo e dinheiro para irem até ali? Se não há vaga, se o perfil não é exatamente aquele, como é que marcam essas entrevistas? Pelo que percebi conversando com os outros candidatos é que esta não é a única que faz isso. Muitas empresas tratam as pessoas como se elas fossem coitadas, ou idiotas.

Que fique claro, ao procurar um emprego, eu não estou implorando. Não quero que tenham pena do meu ser e me deem um emprego qualquer. Colocar-se disponível no mercado de trabalho é oferecer os próprios dons, as próprias habilidades a outros que as necessitam. Trabalho é uma troca, não um favor, de nenhuma das partes. Mesmo que eu não tenha experiência na área, mesmo que eu não saiba exatamente o que vou encontrar, ainda que eu precise daquele trabalho. É preciso tratar as pessoas com um pouco mais de dignidade, com muito mais honestidade. Ou só quem tem um Q.I. não é um “coitado”? Procurar por vagas na internet, precisar arrumar um emprego para sobreviver, colocar-se à disposição é mendigar?

P.S.1: Não conheço empresas de RH, por isso, não generalize. Falo de gente desonesta e oportunista.

P.S.2: Se você tem alguma dica para me dar sobre essa minha nova empreitada, agradeço!

P.S.3: Vou ter que escrever um post sobre a época em que eu lecionava. Alguns ex-alunos têm escrito coisas maravilhosas e isso realmente mexe comigo. Se eu era tão boa professora, por que não quero voltar à sala de aula?

No meio do caminho havia uma mudança

É assim, quando a gente descobre algo, vem a tal da pedrinha no meio do caminho. Nem sempre é pedra, nem sempre é sinônimo de algo ruim. Muitas vezes, são só pequenos desvios…

Antes de mudar de cidade, me dei conta do que quero fazer como meio de vida como ganha pão: escrever. Com a frase “o dia em que não escrevo, enlouqueço”, percebi, na terapia, que eu devia tornar isso mais real…

Faltam 3 caixas, 2 malas e os livros espalhados no chão do escritório

Mas, aí, veio a mudança; e não é que foi uma só, rápida, caminhão de lá para cá. Foi tenso. Mudamos para um hotel. Levei poucas coisas, mas suficientes para os 3 meses a que tínhamos direito. Com uma criança de 4 anos e um bebê de 5 meses na época, fomos morar em um quarto de cerca de 15 m². Três meses diferentes. O dia todo com as crianças, pouco tempo pra mim, perto da praia, sem a possibilidade de frequentá-la diariamente devido às dificuldades em levar um bebê pra areia. Três meses engordando 10 quilos…

E, nesse meio tempo, encontrar uma casa e uma escola em uma cidade desconhecida. Aprender caminho, ir parar em comunidades, ficar presa no trânsito, aprender a lidar com um novo jeito de ver a vida. Então, caminhão de mudança e muita, muita arrumação, já que temos mais coisas do que espaço.

Por isso que, assim, desse jeito, apesar de ter descoberto o que amo fazer, não o tenho feito. Entro rapidamente nas redes sociais, posto poucos textos por aqui, entro quase nunca nos blogs que amo frequentar.

Agora são meia-noite e meia. Dei uma pausa na organização da cozinha para vir aqui um pouco. Só pra me explicar, só para desabafar, para não enlouquecer. Depois, pretendo escrever sobre as várias lições que tenho aprendido nessa abençoada terra carioca (que passei a amar incondicionalmente).

Os números de 2011

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos da Ópera de Sydney tem uma capacidade de 2.700 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 33.000 vezes em 2011. Se fosse a sala de concertos, eram precisos 12 concertos egostados para sentar essas pessoas todas.

Clique aqui para ver o relatório completo

Quem paga por nossas escolhas

O problema das nossas escolhas é que geralmente não somos os únicos a pagar por elas – principalmente quando se é mãe.

Outro dia fui ao cinema com uma amiga e minha mãe numa sessão mais tarde, às 23h. Queríamos ver a estreia de Harry Potter (sim, eu adoro), meu marido topou ficar com o pequenucho e achamos deliciosa a ideia de irmos ao cinema tão tarde para ver algo tão esperado. Quando fomos dormir, já era mais de duas horas da manhã.

No outro dia, adivinhem como fiquei… um bagaço, claro. É lógico que vários fatores contam para eu ficar tão cansada apenas por ir dormir tarde, já que eu não bebi, não dancei, não fiz nada demais. Acho que a gravidez é um deles. O fato é que eu estava tão cansada que às 11h da manhã meu marido me mandou tirar um cochilo, porque ele faria o almoço. O almoço não saiu: quando acordei, ele argumentou que ainda estavam sem fome e estavam me esperando. Fomos almoçar mais de duas horas da tarde. Meu domingo foi horrível, passei-o morrendo de preguiça, sem conseguir dar a menor atenção ao meu filhote. Meu marido passou-o jogando vídeo game e, depois, assistindo ao futebol. Quando me dei conta, já era tarde, não tinha janta e o Cauê estava desmaiando de sono, todo irritado. Assim que ele dormiu, fiquei pensando em como nossas escolhas atingem quem menos pode se defender.

Parei para pensar em várias decisões, nas várias vezes em que estou cansada de ser mãe (sim, sou humana e sinto isso) e quero pensar somente em mim mesma. Pensei no quanto eu trabalhava há pouco mais de um ano, focando somente na minha carreira, pensei em escolhas que fiz em função daquilo que eu gosto, sem pensar nos outros ao meu redor.

Eu sempre achei que o mundo tinha que entender essas escolhas e “pronto-acabou”. Não tinha percebido como as pequenas, principalmente, afetam alguém que está aqui porque fiz uma escolha – tê-lo – e ele não tem muitas opções além daquelas que eu tomar.

A gente bem sabe que toda mãe é filha de Deus e merece (deve) ter momentos somente dela. A gente precisa ser feliz para fazer os filhos felizes. Entretanto, acredito que, muitas vezes, principalmente hoje em dia, a gente fica fazendo escolhas para sermos felizes sem levar em conta se alguém está infeliz por isso.

Os pequenos ainda não conseguem tomar decisões por eles mesmos, não conseguem dizer que estão infelizes com a gente ou com a vida e todas as vezes que escolhemos sermos “felizes” independente deles, eles não podem fazer nada a não ser aceitar. Meu filho só come se eu puser comida no prato dele; só toma banho se eu o mandar para o chuveiro, só escova os dentes quando avisamos – ele tem apenas três anos. Feliz ou infelizmente, até uma certa idade, ele só tomará boas decisões se eu indicar o camiho e, para isso, eu preciso abrir mão da “minha felicidade” para tentar alcançar a “nossa felicidade”.

Acho que este é um assunto muito difícil e que mexe com todos. Ninguém deve ser julgado, mas nós devemos, sim, avaliarmos a nossa posição como mães (pais) e pensar o quanto fazemos nossos filhos felizes. Quando percebi isso, deixei de querer reclamar tanto das escolhas que tenho feito. Afinal de contas, em alguns anos, os filhos se vão e eu ficaria reclamando por tudo que não fiz…

P.S.: Não estou defendendo fazer todas as vontades dos filhos. Sou contra sermos servas dos pequenos. Estou falando apenas da disciplina que a vida exige das mães.

P.S.2: Também não estou defendendo abrirmos mão totalmente de quem somos para cuidar dos filhos, aos modos de antigamente. Por favor, não, depois, quando os filhos se vão, as mães entram em depressão. É preciso que sejamos nós, cuidemos de nós, sejamos felizes, mas com limites (também)!

O trabalho e a vida familiar

Constituir uma família não significa somente casar-se e ter filhos. Ser família demanda, de cada um, uma energia, um amor e uma dedicação inigualáveis.

É muito difícil em um mundo tão atrativo como o nosso preocupar-se com os outros. E “outros” não siginifica somente a degradação do planeta ou pessoas que passam necessidades.

Dedicar-se à carreira profissional, à vida social, às facilidades tecnológicas é muito mais atrativo e fácil que dedicar-se a formar uma família. Pois, para isso, o outro passa ter uma importância tão grande quanto nós mesmos.

A família, assim como a vida, é de uma grande poeticidade. É o conjunto de diferentes palavras que, juntas, dão significado, ritmo e beleza aos versos. Diferentemente do que se diz, um bom poema não vem somente de inspiração. É necessário que o poeta trabalhe cada sílaba, cada palavra para que o resultado seja um deleite aos outros. Do mesmo modo, a vida familiar. Cada um é poeta neste poema em conjunto. O trabalho parece dobrado para dar sentido a vidas tão distintas.

Muitas vezes vejo as pessoas reclamando da quantidade de trabalho que têm e do pouco que ficam com a própria família. Vamos deixar de lado da discussão aqueles que precisam trabalhar muuuito para conseguir uma cesta básica, pois o motivo pelo qual se afastam da própria família é óbvio. Por outro lado, grande parte das outras classes sociais trabalha muito e não necessariamente é porque faltará algo em casa. A gente se pega falando o diabo por causa das exigências profissionais, mas não consegue abrir mão de nada para que fiquemos mais em casa: reuniões absurdas, congressos que viram passeio, happy hour com colega, horas a mais na empresa – pergunto por que e para quê?

Qual é o sentido de não vermos (ou não termos) nossas próprias casas como lugar para ser feliz e descansar? Por que nos atolamos no trabalho para deixarmos nossos próprios filhos com estranhos? Um homem disse para meu marido: “Vou dar um gás por quinze anos e depois vou curtir minha família”. Nossa, daqui quinze anos o Cauê terá 18 e não estará mais afim de ficar conosco. Será que meu filho (e nós quando crianças) não preferiria que ficássemos mais com ele agora do que mais tarde?

Gostaria muito de saber o que vocês acham e polemizar este assunto… que tal?

Depois de ler um post no blog Rede Mulher, resolvi adicionar duas propagandas que relacionam-se com esse post.