O nosso (não) poder de decisão

(ou A torre mais alta)

Estou revoltada com as grandes corporações. Sério. Muito sério mesmo.

Outro dia, assistindo ao (maravilhoso) vídeo “Muito além do peso“, vi um publicitário americano dizer que, desde sempre, quem tinha as torres mais altas eram os que mandavam no resto da população – a igreja, os reis, os governos. Hoje, são as grandes corporações que possuem os maiores prédios. A realidade parece ser tão distante do nosso dia-a-dia – mas, a cada dia que passo, percebo o quanto estes fdp senhores conseguem determinar boa parte da nossa vida. Pensem um pouco comigo e, depois, me digam se estou exagerando.

Será que realmente temos algum poder em nossas escolhas?

  • Quando fiquei grávida, decidi ter parto normal, assim como outras várias mulheres. Quantas conseguiram? Quantas não foram manipuladas, empurradas, forçadas a tomar uma decisão contrária à sua por causa da conduta (infeliz) do médico, ou do plano de saúde, ou de uma cultura estúpida que parece difundir que uma cirurgia é melhor que o natural?

Eu não consegui. Cai na conversa fiada do médico. Tem mãe tendo que burlar o plano de saúde para conseguir ter um parto normal sem ter que pagar a mais por isso… (olhem essa notícia aqui)

Algumas mães não sabem que o aumento dessa cirurgia está ligada diretamente ao aumento de internações de recém-nascidos com problemas respiratórios em UTIs. E as que sabem e, ainda assim, preferem colocar seus filhos em risco? Pensam que é uma questão de escolha pessoal, quando, na verdade, é uma questão financeira, mercadológica, bem conduzida pelos principais interessados.  (essa notícia aqui pode esclarecer um pouco mais)

  • Passado o parto normal, nos deparamos com médicos pediatras sendo PATROCINADOS por uma indústria de alimentos. E aí, crentes na conduta desses profissionais, muitas mães deixam de amamentar para oferecerem leite industrializado, mucilon e outros pozinhos que a tal empresa produz. Porque o médico prescreveu. Sério? Sério mesmo que os pediatras deixaram a medicina de lado, com centenas de pesquisas sobre alimentação infantil, para renderem-se a uma indústria alimentícia? Essa nota aqui publicada no Facebook mostra um Congresso patrocinado pela Nestlé – que, por sinal, aconteceu perto de casa e tinha o símbolo da empresa bem grande estampando a entrada.

Mais uma vez, caímos na questão da escolha. “Eu não quero amamentar”, “a criança ficou com vontade”, “o médico recomendou”. Mais uma vez, a impressão de que a escolha foi nossa. Foi mesmo? Porque ninguém está discutindo a questão de ser uma mãe melhor, ninguém é “menos mãe” por certas escolhas. Mas, convenhamos, precisamos repensar se realmente algumas escolhas foram realmente nossas.

  • Seu filho não precisa mais só de leite, agora, ele precisa de comida. E vamos nós de novo… comida em potes, sucos com soda cáustica, biscoitos repletos de açúcar, preparados lácteos, leites cheios de sódio, toda comida industrializada, desconhecida, chegando ao nosso lar. Vamos combinar que, atualmente, é bem difícil não ter nenhum produto desses na despensa de casa, não é? Será que quem produz esses alimentos está realmente preocupado com a saúde de quem o consome?

Eu não sou a santa, nem a mãe perfeita e todos esses alimentos tem ou já tiveram seus lugares aqui em casa. Sou um pouco rígida com alimentação, mas, mesmo assim, depois do vídeo, eu aboli vários por aqui. Mais uma vez, a questão de quem manda. Sempre me achei “a correta da alimentação”. Sempre tive certeza de que, ainda que não fosse radical, sempre fizera escolhas mais saudáveis para nossa família. Tenho me sentido enganada, usada, mera palhaça na mão de um acionista rico com apartamento de frente para o Central Park.

  • Minha filha teve febre. No 3o dia, eu a levei a um hospital credenciado ao meu convênio médico. Hospital de ponta e blá, blá, blá. À tarde, o hospital estava muito lotado, fui embora do mesmo jeito que entrei. Levei-a novamente à noite. Ela chegou lá com 39,8° de febre. Passou pela triagem. 2 horas depois, ainda não tinha sido vista por nenhum médico e descobri que uma mãe estava a 5 horas esperando ser atendida. Fui embora mais uma vez. Ontem, no 4° dia de febre, voltei ao hospital. Cheguei 4 horas da tarde, fui atendida às 8 h da noite, saí de lá às 9h, com o diagnóstico de uma pneumonia atípica. Eu estava furiosa. Não só eu, como todos os outros pais que ali esperavam. Rolou até barraco com os seguranças.

O plano de saúde não é um plano barato. A empresa onde marido trabalha oferece aqueles planos excelentes, do tipo que a gente se sente confiante no caso de precisarmos. Só que quando chega a hora, a coisa pega. Não dá para responsabilizar os médicos ou outros funcionários do hospital pela superlotação. Mas, dá, sim, pra xingar e ficar furiosa com os responsáveis por gerenciar um hospital deste porte e não oferecer serviço de qualidade. O dinheiro, aqui ou lá no SUS, não faz a menor diferença, porque, quando a doença chega e não há nada que você possa fazer além de esperar do hospital onde está, tanto faz se o seu plano é mais caro do planeta ou se você está no postinho de saúde do bairro. O dinheiro faz diferença para aqueles que estão dirigindo, decidindo como será a qualidade da nossa saúde.

Por fim, obrigada pela paciência de lerem até aqui. Em todos esses pontos, há altos executivos, pessoas FDP  infelizes, que ganham muito, muito dinheiro às nossas custas. Para eles, pouco importa se estão nos matando, se nossos filhos ficam doentes, se são bem tratados ou não. Importa o quanto as ações de suas empresas estão valendo, importa o quanto o plano de saúde, o hospital, os diretores vão ganhar no fim do mês.

Existe, amigos, algum meio de sairmos deste ciclone? Existe alguma solução para isso? Porque, por mais que façamos, me sinto em uma roda em que sempre há algo para me surpreender e me derrubar.

(P.S.: E também me pergunto quantas mães continuarão vivendo suas escolhas como se fossem suas, ignorando todo o mal que podem estar fazendo para si e para os próprios filhos. Quantas pessoas continuarão vivendo como se nada disso estivesse acontecendo?)

Um pensamento sobre “O nosso (não) poder de decisão

  1. Vira e mexe me pego em questionamentos como esses, mas confesso que às vezes me sinto tão triste e impossibilitada de fazer algo maior (sim, porque o possível nós fazemos, cuidando da nossa família e compartilhando conhecimento com nossos próximos)…

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