Por que eu mereço?

Eu mereço…

Atire a primeira pedra quem nunca foi um pouco além na realização de algo usando o argumento do “eu mereço”.

Todos os dias, nos deparamos com pessoas – ou conosco – dizendo “vou fazer/comprar/usufruir isso, porque eu mereço”.

Sem perceber, ou percebendo mesmo, quando usamos “eu”, estamos excluindo todos os outros. Deixando de lado uma análise do discurso, a la Bakhtin (o que seria interessante), e as questões sociológicas, ao realizar nosso merecimento, provavelmente, estamos privando outro de fazer o mesmo. O ponto é: por que eu mereço?

Ricos, pobres, trabalhadores, desmotivados, motivados, crianças, adultos, mulheres, homens. Todos merecem. Todos têm um argumento mais do que aceitável de que merecem um mimo, ou qualquer coisa que estejam desejando.

Entretanto, o que tenho visto é que as pessoas passam a usar isso como argumento para sua obrigação. Trabalhar bem, de certo modo, é nossa obrigação. Sermos bons pais, cuidarmos da nossa própria casa, enfrentar a vida. Tudo isso faz parte da nossa obrigação, dos nossos deveres. Não estamos fazendo nada além do que nos cabe.

Lembro-me do meu pai que, quando adolescente, cada vez que eu chegava com uma super tarefa pronta – como notas boas, louça lavada e coisas afins, me respondia tranquilamente: “Não fez mais do que sua obrigação”. Ele não estava errado, estava? O que eu tinha feito era exatamente o que precisava fazer, então, por que eu deveria ganhar uma chuva de flores?

A impressão que tenho é que existir tornou-se um fardo. Como se viver deveria ter apenas a parte bacana, legal, divertida. Fazemos tudo o tempo todo sem querer passar pelas dificuldades. Como se a vida não nos oferecesse, a cada ciclo, um novo desafio, um novo problema. Como se não pudéssemos nunca passar pela dor. A dor também faz parte da vida.

Outro dia, uma amiga postou a seguinte frase no Facebook: “Hoje, não importa o erro que a pessoa cometa, ela é sempre vítima: seja da sociedade, seja da história, seja da economia, seja da política, seja das instituições, seja da família. Ninguém é culpado. Logo, como alguém disse: é uma época em que ninguém assume a responsabilidade, nem adia prazeres e nem se presta a sacrifícios”. (Ariovaldo Ramos).

Acho que este pensamento vem na mesma direção do que estou tentando dizer. Se somos vítimas, se somos coitados, então, pobrezinhos de nós mesmos, merecemos muito mais.

É lógico que todos merecem coisas boas. Mas, sinceramente, de onde vem esse discurso de merecimento? Se prestarmos atenção tudo o que queremos na categoria “merecimento” são bens de consumo, relacionam-se, quase sempre, com o dinheiro. O mundo comercial/publicitário etc quer que pensemos assim. Porque, para eles, pouco importa nossa condição de vida. Se consumirmos, se nos endividarmos, melhor. Quanto mais dinheiro colocarmos na roda (e no bolso deles), melhor. Como a sociedade mudou, o modo como nos vendem tudo não é mais “você precisa comprar isso” (lembra do “Compre Batom”?), hoje, eles usam o argumento do “porque você merece ser feliz” – e aí, já dizia o bom Zeca Baleiro, “lugar de ser feliz não é supermercado”.

Enquanto nos colocarmos nessa posição, nunca seremos de fato donos dos nossos destinos – se é que somos, mas tudo bem. Vamos ser sempre passivos em relação a tudo – políticos, natureza, economia, pessoas ao nosso redor. E não é que eu não ache que ninguém mereça nada. Só acredito que precisamos ser menos egoistinhas, reclamando daquilo que é a nossa obrigação (e, sim, eu me incluo na lista de reclamadores hors-concurs).

3 pensamentos sobre “Por que eu mereço?

  1. Verdade. Mas o contrário também é verdadeiro: por que eu NÃO mereço?😛 Nem só de obrigações e tarefas cumpridas vive o ser humano😛

    Acho que estamos num época de mudanças…se antes (e por “antes” entenda-se até a geração dos nossos pais!) era tudo muito levado a sério, pesadão, sem muito espaço para momentos de divertimento, agora a coisa toda está muito hedonista, egoísta e inconsequente. Provavelmente em breve encontraremos um ponto de equilíbrio🙂

  2. Sempre gostei de questionamentos. Eles nos fazem crescer, amadurecer. E isso é bom. Seu ponto de vista é bastante válido, da mesma forma que o comentário da (ou do?) Janus. E como é difícil atingir o ponto de equilíbrio!
    De fato, andamos acomodados. E cá pra nós, é tão mais fácil culpar outros por erros nossos, que até os ditos “certinhos” caem nessa tentação…

Só é um Buteco se tiver conversa! Vem, deixe seu comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s