A reclamação e as escolhas

Eu reclamo todos os dias de ter que ficar em casa. Reclamo dos trabalhos domésticos. Reclamo da falta de independência financeira. Reclamo da falta absoluta de tempo para mim mesma. Sou a encarnação do “mimimi” e o absurdo da reclamação.

Ao mesmo tempo, não consigo mais me imaginar em um trabalho que eu fique longe dos meus filhos o dia todo  ou em outras pessoas passando para eles todos os valores que acredito importantes. Reclamos, mas não tomo atitudes. Talvez porque, inconscientemente, eu ainda queira estar aqui com eles e há um lado meu que não consegue assumir isso.

Aí, que hoje cedo, depois de passar a manhã reclamando internamente, eu vi este vídeo:

E chorei, chorei, chorei. E me lembrei deste outro. (talvez, ateus, agnósticos e não-cristãos sofram um pouquinho, mas a mensagem é muito legal).

Acho que eu me cansei de tanto reclamar.

Bom, eu não me lembro da minha primeira infância. Tenho alguns flashes. Mas, de modo geral, eu não me lembro do quanto minha mãe se dedicou a nós. Meus filhos provavelmente não se lembrarão de todo esse meu empenho. Por outro lado, eu realmente acredito que todo esse amor, toda essa energia que doamos aos pequenos ajuda a fortalecer os alicerces internos de meu filhos.

Se fiz essa escolha, se acredito no valor que isso tem, por que a torno tão pesada? Acho que, por um lado, sinto muita falta daquela independência que a gente tem quando se está trabalhando. Acho que carrego comigo uma desvalorização dessa opção. Acabo me esquecendo do que me motivou ter o cuidado com meus filhos uma prioridade. Passo olhar os tijolos ao invés da catedral, a louça, ao invés das crianças sendo felizes. Preciso parar de reclamar e assumir minhas escolhas. E ser feliz com elas.

 

 

(P.S.: não estou condenando quem trabalha, não estou dizendo que crianças que a mãe trabalham não são felizes, não acho que atitudes diferentes das minhas são piores ou melhores. Essa é apenas a minha perspectiva sobre as minhas atitudes, tá?)

9 pensamentos sobre “A reclamação e as escolhas

  1. Adorei o seu texto e sabe que depois de muitos anos e principalmente estes dois últimos, que foi quando a Manuella chegou estava me preparando para isto! Para ficar em casa e cuidar da minha filha , do meu marido, edna minha casa e de mim!!! E deu certo!!! Desde o dia 19 de abril estou fazendo isto. Claro com algumas limitações, pôs depois de 16 anos trabalhando agente fica meio perdida!! Mas admiro você e estou amando simplesmente ser EU e não o EU da empresa tal e ainda mãe , esposa!!! Vou precisar de muitas dicas, idéias!!! Beijos

  2. Eu tenho dúvidas a esse respeito, de ter deixado minha vida profissional de lado e, por conta disso, até hoje não ter voltado de forma plena. Mas, quando vejo meus filhos, tenho certeza de que estou fazendo o que é certo para mim. Sou solidária e compartilho desse seu questionamento.

  3. Texto lindo demais, Sofia! deixei a carreira de lado para ficar em casa e além das muitas cobranças internas ainda tenho que aturar os comentários dos amigos e familiares. Seu texto acalmou meu coração.

    Beijos

  4. Esse assunto é muito complexo mesmo…nunca conheci mulher alguma que não tenha ficado no dilema casa e/ou trabalho-fora-de-casa.

    …e absolutamente TODAS (tanto as que decidiram ficar quanto as que continuaram fora) reclamam da escolha feita😛 Pelo simples fato de que quando você escolhe uma coisa, necessariamente abre mão de outras, escolha sempre implica em renúncia – pior que isso é nem ter a opção de escolher😛

    Sei lá, não tenho filhos e nem sei se vou ter (pelo jeito não), então nunca tive que passar por isso (mas acho que não aguentaria ficar em casa muito tempo, não fui feita para tarefas domésticas *rs*)…minha mãe não teve muita escolha, meus pais não tinham dinheiro, então ela tinha que deixar a gente com outras pessoas – umas épocas com empregadas domésticas, outros com a vizinha, outros com nossa avó…não acho que tenha feito uma escolha equivocada, mesmo porque ela trabalhava 6 horas diárias, então passava tempo com a gente também (depois quando crescemos, íamos à escolinha também, então nem era tanto tempo assim longe dela, pois tínhamos distrações de sobra ;)). E é sempre bom a criança crescer com outros adultos que não a mãe, para conhecer outros modos de lidar com ela, outras opiniões, enfim…e mesmo meu pai, que só víamos à noite (e em algumas épocas durante o almoço também), nunca senti que foi um pai distante, ele sempre conversava conosco, ajudava nas coisas da escola, nos mimava, assistia TV junto, essas coisas. E tinha os fins de semana e períodos de férias, óbvio!

  5. Amei a mulher invisível, tbém fico com estes questionamentos, com esta dúvida, parei de trabalhar há 3 anos e tem hora que me vejo louca engolida pela rotina de um trabalho que nunca acaba, mas aí vem um garotinho de 9 anos e fala pra mim “mãe, vc me ajuda muito” isso depois de ver a chamada do JH falando “hj é o dia daquela que te ajuda em casa todos os dias…” era o dia da doméstica, ele falou “mãe, vc não é empregada doméstica,mas me ajuda muito…” aí desisto de fugir com o Circo de Soleil,rsrsrsrs
    Bjs, Soft!!!!

  6. Sofia, eu também acho que toda mãe passa por esses questionamentos; umas mais, outras menos. Eu escolhi voltar ao trabalho depois da licença maternidade. Até que achei que fosse sofrer mais, acredita? Bom, ele tardou mais veio. Com o passar dos meses, ela crescia e eu sentia que estava perdendo todo aquele primeiro ano de desenvolvimento, mas aí, eu não podia largar o emprego naquele momento. Enfim, nem tudo acontece do jeito que queremos ou gostaríamos. Continuo trabalhando, mas sinto muito mais falta dela agora, aos 2, ao mesmo tempo que tenho dificuldade em me imaginar fora do mercado de trabalho.
    Sobre as lembranças da infância, realmente elas são poucas no que se refere aos 4 ou 5 primeiros anos de vida. Em compensação, lembro com muito carinho da presença da minha mãe a partir da minha vida escolar (não frequentei creches nem tive babá): ela estava todos os dias com a gente: brigando para comermos direito, brincando, ajudando no dever de casa… Foi a época que mais marcou! E quando penso nisso, a vontade de trabalhar menos horas aumenta. Mas como disse a Janus, cada escolha pesa porque sempre abrimos mão de algo…

  7. Venho aqui contar minha história:
    Eu não sou de família rica e meus pais se esforçaram muito para que eu estudasse. Quando chegou a fase de fazer faculdade, não tínhamos dinheiro para isso. Arrumei um emprego de recepcionista num escritório de advocacia, comecei a vender cosméticos e com muito esforço, me formei em Direito. Passei no exame da OAB e quando eu ia enfim iniciar minha carreira, engravidei do meu filho. O meu sonho de ser uma profissional de sucesso foi adiado. Ninguém me deu emprego nesta época e como meu noivo tinha um emprego fixo e mais estável, nos casamos e fomos ter nosso bebê. Precisei mudar de cidade por causa dos compromissos profissionais do meu marido e fiquei em casa anos esperando ele crescer e sonhando com o dia em que eu fosse trabalhar. Quando enfim ele ficou maiorzinho, arrumei um emprego fora da minha área e ganhando pouco por trabalhar somente meio período. Neste momento já estava pesando o fato de sair de casa e ter que deixá-lo. A famosa “culpa” que sentimos ás vezes por não poder ficar agarradas neles o tempo todo…
    Estava feliz e deixava meu filhote com minha sogra, uma mulher amorosa e incrível nos momentos em que eu estava trabalhando. Neste último mês de outubro de 2011, ela faleceu de repente e deixei de trabalhar para cuidar do meu filho de novo e ajudá-lo a superar esta perda.
    Hoje ele tem seis anos, quase sete e me vejo ás vezes reclamando que me esforcei tanto para ser uma boa profissional e a vida têm me dado um baile. Mas ao mesmo tempo, vi meu filho falar, andar, ir no primeiro dia de escola…
    Realmente, a vida das mulheres não é fácil. Não existe certo ou errado nesta questão de trabalhar fora. O que temos que aprender a fazer é não nos cobrar tanto porque nem tudo na vida está sob nosso controle. E estou neste aprendizado até hoje….
    Amei este blog e um beijão a todas…

    Patrícia

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