O meu lado covarde

Lembra quando estávamos na 6a série e todo mundo gritava “nóóóóóó” ao escutar que um infeliz tinha levado um fora? Eu era a infeliz. Não só levava muitos foras, como não sabia dar nenhum… até hoje em dia sou assim.

Tenho um problema sério: eu não sei falar o que penso. Não sei responder ao meu interlocutor que não gostei do que disse ou do que fez. Eu simplesmente silencio. Guardo. E depois guardo de novo, e de novo. Até que um dia, em uma situação qualquer, eu explodo e falo tudo. Falo mais do que deveria, acabo ferindo o outro, acabo falando coisas que, durante anos, eu elaborei, mas não tive coragem de dizer. Quanto mais tomo consciência disso, mais eu me sinto uma covarde, por mais que eu tenha explicações para essa minha dificuldade.

Lembro-me da primeira vez em que isso aconteceu. Eu tinha uns 10 anos. Minha melhor amiga, e minha comadre atualmente, era aquela que sabia dar tiradas em todos. Depois de vário foras, durante um jogo de beisebol, eu estourei. Terminei a amizade com a frase: “Só porque você é loira, tem olhos verdes, usa aparelho e sabe dar foras, você não é melhor do que eu!” Saí batendo os pés e chorando muito. Era minha melhor amiga e eu não sabia como responder às brincadeiras. Bem óbvio que, alguns dias depois, estávamos brincando novamente, rindo muito como se nada tivesse acontecido. Ainda bem.

Das outras vezes em que isso aconteceu, já adolescente e, depois, jovem, eu não tive tanta sorte. Desabei meu amontoado de palavras em cima de amigas que, com certeza, durante algum bom tempo, carregaram muita mágoa por causa da dureza de tudo que disse. Fiquei sem algumas delas por um bom tempo.

Mas isso acontece não só com minhas amigas. Acontece o tempo todo. Familiares, conhecidos, desconhecidos. É só alguém me falar algo que eu não concorde e eu travo. Tá, algumas vezes consigo falar o que penso. Geralmente, na primeira vez em que escuto, eu respondo. Talvez, eu responda de um modo muito educado, ou muito baixo, ou muito covarde, porque, geralmente, a situação se repete. E aí, nas vezes seguintes, como eu já falei uma vez, eu me calo.

Quando acontece com estranhos que, de algum modo, sou obrigada a vê-los com alguma frequência, como um síndico, uma funcionária de casa, um colega de trabalho ou uma vovozinha que mora na rua ao lado, eu também fico quieta. Tá, até com gente que nunca mais vou ver, eu fico quieta. Outro dia, na fila do mercado, uma senhora encheu meu saco porque a roupa que minha filha usava era muito quente. Não, não era tão quente. Ela usou de todos os argumentos, eu respondi educadamente a cada um deles. Depois, fiquei me remoendo – por que eu simplesmente não a mandei para qualquer outro lugar?

Um dos pontos é que eu detesto brigar. E, por mais “paz e amor” que pareça ser, a verdade é que eu não sei brigar. Se a pessoa passa para a agressão verbal, eu perco o chão; me ofendo facilmente, levo para o lado pessoal e acabo ficando sem saber o que fazer, ou o que falar. Eu prefiro não me arriscar a levar um “fora” e não ter argumentos.

Um exemplo simples é a internet. Toda vez que leio algo que não gosto, passo muitos dias elaborando uma resposta àquilo. Estruturo os assuntos internamente, repenso todas as possibilidades de resposta, já deixo os argumentos prontos para cada fala. E aí, eu escrevo. Quando eu quero conversar sério, faço o mesmo exercício mental. Planejo repetidas vezes tudo o que pretendo falar, antes de, realmente, começar a conversa.

A explicação pode se facetar em várias: insegurança, tentativa de controlar tudo ao meu redor, baixa auto-estima, não gostar de brigas, etc. Infelizmente, a conclusão a que tenho chegado é que, provavelmente, eu seja mesmo um pouco covarde. E isso me entristece. Principalmente, porque tenho percebido o quanto essa característica ainda me faz mal. O quanto, em muitas situações, eu precisaria ser mais firme, mais sincera, menos podada ou educada.

Tenho tentado mudar isso. Mas devo dizer que é muito, muito difícil. É como se eu estivesse lutando contra minha natureza. Pareço estar batendo contra um muro que nunca irá ceder. Parece que, por ser adulta, descobrir que há tanta covardia dentro de mim é uma vergonha. Não só para mim, mas para o exemplo que ofereço a meus filhos.

13 pensamentos sobre “O meu lado covarde

  1. Eu também sou assim. Não sei se é coisa de mulher, ou se os homens simplesmente não ficam se analisando e não estão nem aí. Já vi vários deles lambendo chefes e concordando com tudo e pelas costas falando o que realmente pensavam. No nosso caso acho que tem a ver com a política da boa vizinhança e também por pesarmos muito as implicações dos nossos atos. A explosão acaba sendo inevitável se a gente vai guardando e remoendo.
    Tenho me policiado muito para aprender a me comunicar com pessoas próximas. Tenho tentado avaliar com que grau de delicadeza me tratam e aplicar esta mesma graduação no tratamento com elas (se me criticam por x motivo também me dão o direito de fazer o mesmo, e se gostam de ‘falar a verdade’ também deveriam gostar de ouvi-la também). Principalmente, tenho tentado não explodir com pessoa que amo. Pois infelizmente se a gente não responde pra pessoa que mereceu a resposta, tá sujeito a explodir justo com quem está perto e a gente tem mais intimidade. E isso não é justo e prejudica ainda mais. Acho que se você tiver isso em mente, ou seja, o prejuízo que isso traz na prática à sua vida, essa coisa de pesar os prós e os contras quase que inconscientemente vai começar a mudar o seu comportamento na prática. Beijos!

  2. É sempre muito difícil fazer algo que vai contra nossa natureza!

    E no meu caso é não reagir sempre. Não que minha lingua seja mais rápida que meus pensamentos. Eu penso muito, muito, muito e falo. Por isso não posso dizer que “escapou”, que falei sem pensar. Se falo algo que magoou, é pq, naquele momento, eu preferi magoar a ficar quieta. Claro que isso não acontece com frequência, caso contrário não continuaria casada, não teria amigos, seria vista como alguém difícil de lidar.

    Eu sou da turma que prefere discutir a “cobrir” com panos quentes. E gosto que façam assim comigo também. Claro que isso não significa sair ofendendo os outros ou ser ofendida também.

    Passamos por uma situação aqui em casa em que minha vontade era confrontar as pessoas envolvidas e resolver de uma vez por todas. Mas dessa vez eu precisei me calar. No começo eu fui obrigada a me calar, a bem da verdade. Mas depois entendi que aquilo seria o mais sábio a fazer.

    Resultado? Quase morri (exagerei?).

    Estou fazendo terapia para aprender a lidar com esse novo universo pra mim: me calar sem que aquilo me coma por dentro. Me calar simplesmente porque discutir não irá resolver. Me calar e realmente seguir em frente!

    Mas a verdade é que eu realmente preciso aprender a “segurar” a lingua, mesmo quando eu tenho razão. E falar somente quando eu tiver entendido todos os sentimentos envolvidos (os meus e os de quem me prejudicou).

    Tá difícil, mas uma hora consigo!

    * Ai, ai. Ler esse post e comentar aqui foi uma terapia e tanto Sophia! Obrigada!

  3. Amiga, acho que todos nós temos os momentos de covardia em determinadas situações, mas poucas pessoas assumem.
    Amei seu comentário e tenho certeza que vai encaixar em muita gente.

  4. Eu também sou assim, e não acho que seja covardia de forma alguma. O que sinto é que falta articulação de sentimentos e pensamentos em palavras compreensíveis aos outros. Mas, mais do que falta de articulação, o que esse tipo de característica demonstra é boa-fé nos outros: você não fala na hora porque acha que a pessoa vai se tocar por si própria. Mas não, lógico que não…isso raramente acontece *rs* E a mesma coisa por achar que quem sabe com o tempo as coisas mudam por si sós…sem necessidade de qualquer intervenção. Também nunca acontece *rs* ALIÁS, acontece sim: as coisas sempre mudam – PRA PIOR!!!!😉

    Normalmente depois de um tempo, muito tempo, e de várias situações desagradáveis, eu prefiro me afastar sem maiores explicações do que jogar tudo na cara. Mas ultimamente não ando seguindo essa filosofia, falo mesmo, cansei! E olha que nem aí falo tudo o que tinha para falar, hein…normalmente me lembro de outras coisas que me incomodavam muito só depois da briga (que pena!!!! adoraria ter absoluto controle nessas horas para poder enumerar as coisas uma a uma e não deixar nadinha de fora).

    E, sinceramente?? Foda-se se vai machucar o outro. O outro te machucou primeiro, e muito, e não teve consideração alguma – e, pior, ficou repetindo a cagada sem nem se tocar. Então é mais do que merecido.

  5. Pingback: Covarde? « Solitary Angel

  6. Acredito que seja porque a sociedade é hipócrita, gosta de bonzinhos e boazinhas…
    nós mulheres somos educadas para sermos delicadas, fofinhas, sorridentes, e lutar e falar o que pensa é atitude tida como grosseira.
    Mas com o tempo apreendemos a dosar e sermos mais francas.
    Dizem que não precisamos declarar guerra e somente dizer o que pensa.

  7. Ahhh olha só, visão de fora de quem te conhece há alguns (não muitos) anos. Você já mudou MUITO viu?! Presenciei sua luta pessoal contra isso que você chama de covardia (não concordo, mas enfim) e você sabe que leva tempo. E como eu sempre te digo, o principal é resolver o que te faz mal. Então, temos que encontrar o meio-termo entre: “responder pra não guardar” e “não abrir o pacotinho”, tipo escutei, não concordei e tô me lixando! hahahaha
    AMO-TE amiga-irmã! E tô sempre aqui pra responder quando você precisar😉 -> pelo menos ISSO eu sei fazer!

  8. opa, não seja tão dura com você mesma.

    eu também fui assim e sou assim ainda em algumas situações. foram necessários seis anos de terapia para eu aprender a confiar mais em mim a ponto de dizer o que penso de cara. a gente precisa de tanto tempo assim pra elaborar uma resposta só por falta de auto confiança mesmo, porque, na verdade, a resposta pronta e rápida está lá na nossa cabeça, a gente só não deixa ela vir ao consciente com medo de se expor.

    se é uma coisa que te incomoda -e deve incomodar mesmo, pois também me incomodava pacas e ainda me incomoda quando acontece- procure ajuda especializada. pode ser terapia, pode ser algum esporte que ajude a elaborar a raiva (e assumi-la),pode ser fazer algum hobbie que te dê confiança, pode ser escrever mais, colocar pra fora escrevendo (vc sabe, escrever é terapêutico. eu mesma respondo um monte de gente via blogue, especialmente pessoas próximas com quem não “posso” mandar ver ao vivo).

    mas procure ajude. e não ache que isso é covardia. você parece ter uma auto-consciência bem apurada pra ser covarde. o que falta é um pouco mais de segurança, o que não pode ser confundido com covardia. mais segurança e mais “foda-se” pra essa auto-análise toda. já percebi -por experiência própria- que quanto mais a gente se analisa, mais inseguras ficamos (ou até nos analisamos tanto por falta de segurança de SER, simplesmente).

    bjos

  9. Sofia, sinceramente, não considero isso uma atitude covarde. Cada pessoa é de um jeito: umas são ótimas em argumentação, outras em piadinhas, outras em administrar conflitos. Impossível sermos iguais! Mas se sente mal assim, tente mudar. Se não consegue, não lute contra sua natureza. É isso que tento fazer…

  10. Como tem pessoas parecidas eu tambem sou assim lendo a suas palavras parecia eu falando de mim….agora percebo que não sou a única rsrs… Muito boa.

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