Mulheres reféns de malandros – Dia Internacional da Não Violência contra as Mulheres

Antigamente, dizia-se que “mulher de malandro gosta de apanhar”. Eu sempre achei isso um absurdo. Toda vez que se via uma mulher com um cara violento, dizia-se somente “ah, é mulher de malandro”, abandonando a coitada à própria sorte. Eu não gosto de apanhar, nunca gostei. Você gosta? Será que, nesse mundo, existe alguém que gosta de ficar com o rosto todo roxo, de ser humilhado e maltratado por quem ama? Acho que, se houver, são poucos.

O argumento para justificar essa frase (idiota) parece tão válido e simples: “Ah, se ela não gosta, por que continua junto?”

É fácil julgar, já que, geralmente, quem julga nunca passou nem por isso, nem perto disso. Não só nunca viu isso acontecer com alguém próximo como se acha completamente livre desse mal. Tomara.

Quando eu dava aulas no EJA (Educação de Jovens e Adultos), pude conviver com várias mulheres que constantemente eram maltratadas – para dizer o mínimo – pelos companheiros. Uma senhora, por exemplo, mal sabia escrever o nome. Ela bebia muito, sempre à noite, para tentar dar conta das surras que levava quase todos os dias de manhã. Inconformadas, fizemos tudo o que tínhamos ao nosso alcance naquela época – pouco mais de dez anos atrás. Infelizmente, ela tinha muito medo de perder a casa onde vivia, o marido, depois de solto, voltava a atormentá-la e, por mais que explicássemos que ela teria direito a muita coisa, de que ela não passaria fome, a senhora não conseguia largá-lo.

Outro exemplo era uma aluna que o marido parou de bater nela quando o filho o enfrentou. Em contrapartida, passou a ameaçá-la, humilhá-la em público, ofendê-la e diminui-la quando estavam a sós. Quando ela ameaçava ir embora, ele dizia que ela perderia tudo por ser “abandono de lar”, fazendo com que só lhe sobrasse a roupa do corpo. Como nunca tinha trabalhado na vida e não tinha consciência de sua própria força, acreditava no marido e jamais o abandonava.

Além dessas histórias, eu mesma passei alguns anos com uma pessoas desequilibrada, que me maltratou muito.

Não cheguei a apanhar, a ser espancada. Várias vezes, tive minhas mãos esmagadas entre as dele por falar algo que o desagradou. Uma vez, durante uma briga, ele agarrou meus dedos e começou a virar minhas mãos para cima, forçando-as para quebrarem. Quando reclamei de que estava machucando, ele disse que era para machucar mesmo.

O primeiro ano foi lindo. Que amor, que sintonia, que amizade, que parceria. Mas depois que começamos a morar juntos, passei a presenciar vários ataques de raiva contra a própria mãe. Vi banquinhos sendo arremessados, vi portas sendo batidas e, principalmente, uma mãe que era constantemente humilhada. Sim, é óbvio, o pai tinha feito o mesmo.
Os próximos capítulos são de fácil adivinhação: eu, no lugar da mãe, sendo constantemente humilhada, torturada, ameaçada. Escutei de tudo. Vi coisas minhas sendo constantemente quebradas. Vi toda a minha vontade de viver e desejo de ser feliz irem água abaixo. E, me desculpe, não é que eu era ignorante, não escrevia e não sabia ler. Eu era uma feliz aluna de Letras na Unesp. Eu era mais uma menina que acreditava no mundo, feministinha, querendo dizer a todos como viver a vida. “Imagina, um homem ia levantar a mão pra mim.” É verdade, ele não levantou a mão; ele levantou a voz. Ele me afastou de todas as minhas amigas, ele me afastou de todas as pessoas; ele me tornou sua posse. Ele fazia com que eu me sentisse feia e incapaz de muita coisa. Nem sonhar, eu não podia. Ele destruía meu material de trabalho, ele desmanchava tudo o que fazia, reclamava da comida, da casa, de tudo. E repetia que tinha amante. Eu achava que ele ia mudar. Ele jurava que ia mudar. Depois de 4 anos e meio juntos, 6 meses de terapia e alguns de medicação, sai da depressão e, finalmente, consegui terminar com o infeliz.

A “mulher de malandro” não deixa de se separar porque é burra ou gosta de apanhar, mas porque é refém. É refém do homem que a maltrata, é refém de seus próprios medos, de suas angústias e sombras. Usa para si o argumento do amor ao outro, do enxergar o que os outros não veem. Ama, ama muito. Mas não ama a si mesma. Não consegue acreditar que conseguirá viver sozinha, que conseguirá ser amada novamente.

Ao encontrar uma mulher nessa situação, ao invés de tentar convencê-la do quão idiota é o marido, é preciso mostrar a ela apoio para mudar de vida e força para manter o “não” quando o homem voltar com o discurso de arrependido. Enquanto ela não encontrar outro lugar para se sentir segura, enquanto essa mulher tão humilhada por tanto tempo não acreditar que terá uma vida melhor, ela não abandonará o crápula. Até porque ele conseguiu convencê-la de que não merece nada melhor….

Para aquelas que procuram apoio na Lei Maria da Penha, o link aqui.

O dia 25 de novembro é o Dia Internacional da Não Violência contra as Mulheres. Essa foi a minha contribuição para a Blogagem Coletiva. Abaixo, você poderá encontrar outros textos produzidos:

Quebre o Ciclo: http://www.quebreociclo.com.br/

Blog Quem o Machismo matou hoje?

Blog Sabrina Alves 25.NOV.Dia Internacional da Eliminação da Violência contra as Mulheres

Blog Groselha News Violência contra a mulher não é crime passional

Agência Patrícia Galvão Racismo e sexismo na mídia: uma questão ainda em pauta

Blog da Ti Atrás de cada olho roxo existe um homem frouxo… #nãosecale

Sou da Paz Campanha 16 Dias de Ativismo Contra a Violência de Gênero 

Subversiveopendiscourse Violência Contra a Mulher também é Violência Discursiva

Escreva Lola Escreva VIOLÊNCIA DOMÉSTICA, ESTA CHAGA DA SOCIEDADE

Revista Fórum – Entrevista com Maria da Penha Maria da Penha – Sozinha, não se consegue mudar nada

Blog do Indike Como se defender em caso de agressão doméstica

Blog Cozinha da Matilde Longa Vida a Las Mariposas

Maria da Penha Neles “Atrás de cada olho roxo existe um homem frouxo” – Maria da Penha

Blog Mamíferas Blogagem coletiva – Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher

Feminismo Chamada Blogagem Coletiva: Fim da Violência Contra a Mulher

Blogueiras Feministas Blogagem Coletiva: Fim da Violência Contra a Mulher

Blog May Roses Mulheres indígenas – violência, opressão e resistência

Cartilha em PDF Mulheres em Luta por uma Vida sem Violência

Revista Fórum Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres

Blog Cientista que virou Mãe DESRESPEITO E VIOLÊNCIA NO PARTO – Convite à pesquisa e Dia Internacional da Não Violência Contra as Mulheres – 25 de novembro

Blog O Humberto Explica violência não mesmo

Blog Cris Guimarães Basta de Violência contra mulheres

Blog Jornalismo B A mídia dominante e a desvalorização da mulher – #FimdaViolenciaContraMulher

Blog Pimenta com Limão Feministas em ativismo online pelo fim da violência contra a mulher II

Blog Cynthia Semíramis Segurança pública, políticas públicas e violência contra mulheres

Blog Mulheres em Movimento Mudam o Mundo Filme aborda violência contra a mulher, no sindbancarios

Yoga na Gravidez Dia Internacional da não-violência contra a Mulher

Secretaria de Estado da Segurança Pública Delegacia de Defesa da Mulher

Plena Mulher 25 de novembro: Dia Internacional de Luta Contra a Violência à Mulher

Quem ama abraça: http://quemamaabraca.org.br/

Outro Olhar Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres


7 pensamentos sobre “Mulheres reféns de malandros – Dia Internacional da Não Violência contra as Mulheres

  1. Obrigada por retribuir a visita!
    Eu já tive uma relação assim, durou bem pouco, ainda bem!
    Por isso digo como é impressionante o fato de não percebemos o mal quando vivemos com ele. Todo mundo via, menos eu. Estranho mesmo…
    Bjs!

  2. Sofia,

    Amei o post!!
    Que coragem fazer um relato tão pessoal, hein??
    Eu não passei por isso mas, vi a minha mãe sofrer assim, depois de se separar do meu pai, casou-se de novo com um sujeito que fazia isto com ela.
    Presenciei inúmeros espancamentos, me meti na briga inúmeras vezes, já vi ele levar uma arma pra dentro de casa e eu ter q me esconder com as minhas irmãs mais novas esperando pelo pior!
    Enfim, eu vivi de perto o que é a violência doméstica, por 6 anos!!
    Todas as vezes q falei com minha mãe para se separar dele ela sempre prometia que ia fazer e no fim, não fazia.
    A minha mãe é uma professora formada, na época trabalhava em 2 empregos e não precisava dele pra nada mas, não conseguia ficar sem ele!
    Eu já nao aguentava mais presenciar tudo isso e fui embora de casa, sim, EU fui embora, ele não!
    Levei minha irmã do meio comigo e a mais nova (q chamava o infeliz de pai) resolveu ficar com eles, fomos morar com o meu pai.
    Eu sei q ela devia estar sofrendo outras perturbações para não conseguir deixar o infeliz mas, imagine toda a minha dor ao ver minha mãe escolher por ele e não por nós??
    Hoje ela já não está mais com ele pq descobriu uma traição dele e decidiu terminar, quer dizer, o egoísmo era tão grande que só qdo ele fez algo q atingiu diretamente ela, ela decidiu se separar, ou será que ver as filhas vivendo neste inferno q era a minha casa não era dor suficiente??
    Mesmo assim, vive repetindo q ele é o grande amor da vida dela!!
    É óbvio q eu sou contra a violencia contra a mulher, acho absurdo, repugnante de uma covardia tremenda mas, quebrar o ciclo das mulheres que acostumaram a isso é o maior desafio para que esta violência seja eliminada, de uma vez por todas!!
    Desculpe o desabafo!! rsrsrs

    Bjo!

    Loreta#amigacomenta;)
    @bagagemdemae
    http://www.bagagemdemae.com.br

  3. Adorei seu post. Como você disse, é muito fácil julgar uma pessoa sem estar ou ter passado pelo que ela está passando. Pode parecer incompreensível para quem está de fora, mas só quem está dentro entende o que está sentindo e a dificuldade que é para ter forças para sair. Eu, particularmente, não entendo também, mas imagino que se fosse fácil, o problema não existiria, não é verdade?
    Beijos
    Tati
    Mulher e Mãe
    #amigacomenta

  4. tbem vivi com estas barbaridades não com pancadas ,mas com palavras que até hoje ,
    me da nojo de min mesmo mas era , dependente dessa pessoa tive uma educação ,que mulher separada não presta , em que fiz fui trabalhar mas fiquei com a pessoa agora nos aposentamos ele mudou mas pra min não passa de um amigo.
    mais quero dizer a vocês mulheres que antes de tudo gostem muito de vocês mesma pra depois pensar nos outros,porque nossa vida é muito curta e estamos aqui de passagem,então lembre-se que você mulher é a mas importante não faça o que eu fiz porque casa e eles não vamos levar, hoje sou aposentada e dona do meu nariz
    de fome ninguém morre e conselhos não da paz a ninhem , pra min serve como desabafo e espero que muitas sirva como se orientar beijos a vces mulheres

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