Sua mãe sabe mais

Quem é controladora, sabe, é difícil deixar o outro ir, o outro voar livremente.

Ao assistir ao desenho – lindo, por sinal – “Enrolados”, deparei-me com uma cena muito comum: a mãe (na verdade, a bruxa) dizendo que a filha não pode sair. Por sabermos que ela é uma bruxa, já a odiamos e acabamos por não prestar atenção em como sua atitude é muito comum entre nós, mães.

Quem assistiu ao filme, sabe que a bruxa possui o discurso de que Rapunzel é indefesa e depende da mãe para viver. A menina completou 18 anos e quer sair da torre. Ao tentar conversar, acaba sendo convencida de sua fragilidade e de como a mãe sabe o que está fazendo. “Sua mãe sabe mais”, diz a mulher à mocinha. “Só digo isso, porque te amo”, completa ao mostrar à filha como ela é tonta e indefesa, além de outros adjetivos. A cena (em português) é essa aqui (pra quem prefere a versão em inglês sem legenda aqui):

Na verdade, é a bruxa que depende de Rapunzel. Quanto mais controladores somos, mais dependemos de quem – supostamente – controlamos. Justamente por isso, o controlador precisa enfraquecer o outro regularmente, fazendo com que sinta-se dependente cada vez mais. É bem lógico que nem sempre isso é consciente, a maioria de nós não percebe o que faz.

Quem depende de quem?Honestamente, é mais fácil, ao assistir ao filme, enxergar a própria mãe ou a sogra do que a si mesma. Quantas de nós temos coragem de assumir que também temos nossos momentos de bruxas da Rapunzel?

Para que o plano da bruxa dê certo, a estratégia é até simples: diminuir o outro, fazer com que ele não se sinta capaz, convencer o outro de que ele não é tão bom assim: “pequeno demais”, “frágil”, “feio”, “confuso”, “sozinho”, “ninguém vai amá-lo como eu”. Quanto mais dificuldades mostramos ao outro, mais o tornamos dependente e mais certo de que não conseguirá sem o nosso apoio.

Geralmente, os bonzinhos tem esse discurso. “Eu só quero te ajudar”, “só falo para o seu bem”, “você não teria conseguido sem meu apoio”. Tudo isso pode ser verdade, mas não há a necessidade de ser sempre dita ou valorizada.

Sim, é um fato – nossos filhos dependem de nós. Sim, também é verdade de que sabemos muito mais coisas do que os pequenos – em muitos assuntos. Entretanto, será que não somos nós – também – que dependemos deles para viver? Eles se tornam nossa razão de viver (o que é ótimos até certo ponto), mas também o objeto de nossas desculpas, nossas reclamações, ou de nossas oportunidades para escondermos nossas fraquezas e medos.

Não só os filhos entram nessa lista. Marido, amigos, familiares também podem se tornar dependes de nós (e nós, deles).

Pode ser muito doloroso ver o outro ser feliz e não estarmos por perto e não ser conosco. O filho brincando e rindo com outra mulher, o marido conseguindo coisas sozinho, pessoas que, supostamente, dependiam de nós realizando-se sozinhos.

Os nossos bebês crescem e, a cada dia, mês e ano, tornam-se mais si mesmos e mais independentes. Quanto nós colaboramos para que esse processo natural realmente ocorra? Quantas oportunidades damos aos filhos para que resolvam algumas coisas por si? E, conforme tornam-se mais velhos, quantas vezes não os jogamos para baixo com expressões do tipo “você é muito preguiçoso, você não consegue fazer isso, você só sabe isso ou aquilo”?

Proteção não pode significar clausura, não pode vir repleta de um discurso de “como meu filho depende de mim”. Muitas vezes, proteção significa deixar cair, deixar levantar, deixar chorar, deixar descobrir o mundo e a vida. Não se trata de deixar às traças e aos vermes. Trata-se de perceber até que ponto meu discurso protetor não é uma maneira de eu ter o outro como única razão para viver.

Eu sou, sim, a senhora controladora. Gosto de saber onde meus filhos estão, o que estão fazendo, com quem estão. Gosto de saber onde meu marido está, por que ele sorriu tanto no telefone e por que atrasou para chegar em casa. Quando assisti ao filme, lembrei de uma mãe mais velha que conheço. Fácil, né, pensar no outro?!  Entretanto, ao assistir novamente esses dias, fiquei pensando o quanto eu e outras mães novinhas acabam assumindo esse discurso, com uma certa inocência, e acabam transformando a vida de filhos/maridos/família em um inferno. Sim, porque é um muito ruim você perceber que foi manipulado a vida toda e que, na verdade, você consegue muito mais do que te repetiram.

Não é muito fácil deixar de ser controladora. Mas é maravilhoso poder ver quem amamos descobrindo a própria luz e a própria força. Talvez seja mais prazeroso do que controlar.

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14 pensamentos sobre “Sua mãe sabe mais

  1. E aê, carioca?
    Às vezes é preciso q a gente dê uma olhada “de fora” para analisar a relação que temos com as pessoas.
    Sou tão controladora…
    Comentário nada a ver: ainda não assisti Enrolados.

    Jokas da MI (diiirce.com.br)

  2. Magnífico!! Com super destaque para: “Muitas vezes, proteção significa deixar cair, deixar levantar, deixar chorar, deixar descobrir o mundo e a vida.” É difícil desapegar do seu bebê e deixá-lo descobrir o mundo sozinho, ou quem sabe descobrir com você como cantou a Cássia Eller: “Vamos descobrir o mundo juntos, baby…”
    Às vezes queremos adiantar esse processo e não percebemos que não estamos ajudando e sim controlando a vida dos pequenos…eu comecei um post sobre isso mas está no rascunho (muitos estão)…hehehe…Nossa mania de achar que experiência de vida é sinônimo de sabedoria nos priva de aprender com o outro mesmo que esse outro, no meu caso, essa outra tenha apenas 2 aninhos!!!
    E mais uma vez: maravilhoso seu texto!!!

    Beijão, linda!!!

  3. uau,que análise do desenho…adorei sua reflexão e acho muito verdadeira e pertinente…
    Realmente não somos muito diferentes da bruxa e não queremos que algumas pessoas saiam da “torre”,ainda mais se são nosso filhotes amados,queridos e frágeis…
    Eu amei este desenho,fomos ver no cinema,mas com mais 3 crianças e suas mães ficou muito oba,oba,é um tal de trocar pacote de biscoito,leva um no banheiro no meio do filme e tal,vou ver de novo aproveitando os detalhes
    bjs,queridaaaaa!!!

  4. Ainda não vi o filme e agora, quando assistir, vou ter outra visão…hehehe

    Mas é verdade o que vc disse. Eu tb sou controladora e tenho me policiado bastante pra deixar o Vítor levar os tombos dele. Ainda assim eu aviso antes, pq mãe é mãe, né? rs

    No Movimento Escoteiro, para que os jovens atinjam certos níveis e recebam determinadas “condecorações” é necessário que apresentem alguns tipos de projetos. Num curso que fiz eles disseram: “Não interessa se vc bate o olho no projeto e já vê que aquilo não vai dar certo. Não podem os jovens, deixem que eles entendam que devem mesmo sonhar alto e lutar para que as coisas funcionem. E avaliem os projetos não pelo fato deles terem dado certo ou não. Levem em conta a ousadia e a criatividade deste jovem”. Achei isso muito legal!

    Bjs
    Tati
    Mulher e Mãe
    #amigacomenta
    http://bit.ly/hIPkSW

    • Ai, gatona, juro que não! Pensei muito nesse filme essa semana porque o comprei para o Cauê… aí, já sabe vi várias vezes e fiquei pensando…
      Beijão!

  5. Nossa fui lendo o texto e me colocando nas diversas situações, e como a gente sofre quando queremos controlar demais a situação né. Falou tudo, é mais fácil encaixar alguém nesse papel , quando muitas vezes sem perceber estamos colocando o outro numa redoma, e assim como não gostamos disso ninguém gosta.Para falar a verdade eu ando meio com trauma dessa frase: fiz para o seu bem, eu me preocupo com vc, sei lá viu rs
    Bjos

  6. Oieee,

    Agora fiquei doida pra ver o filme!! hahaha
    Sabe, eu sempre fui muito mandona, tenho uma amiga de infancia que repete isto pra mim desde sempre, daí ficamos um tempo sem nos ver e ela me diz toda animada: nossa, vc está tão diferente, tão madura!
    Continuamos conversando e de repente ela manda: mas continua mandona, hein??
    É, acho q provavelmente eu devo ser bem parecida com esta bruxa!! snif…snif…
    Mas, o bom é q a gente sempre pode aprender né??
    Adorei o post!

    Bjo!

    Loreta#amigacomenta;)
    @bagagemdemae

  7. Olá!

    Achei seu blog por acaso, passeando por aí.
    Esse texto veio pra mim na hora certa, certíssima! Eu sofro muito por ser manipuladora, controladora. Sou uma controladora consciente, e me sinto frustrada a cada momento em que tento evitar certos tipos de comportamento, porque nem sempre consigo. Quem mais sofre com isso atualmente é meu marido, pois é ele que está mais perto. Sinto muito por ele, de verdade, e já pedi desculpas um milhão de vezes pelas minhas palavras, pelo meu comportamento nem sempre apropriado; mas sei que palavras, depois de ditas, já se foram, é tarde demais. Não sou ciumenta, nem controlo horários, e-mails ou ligações telefônicas, mas tenho obsessão por planejamento, só sei lidar com as quando elas acontecem à MINHA maneira, entende?

    Abraços!
    Line

    • Nossa, Line… realmente, eu também sofro porque planejo demais… Tenho procurado respirar fundo e perceber que o mundo não e nunca foi do meu jeito e que ninguém no mundo é obrigado a me aturar. Está um pouco difícil, mas tem dado certo…
      Abraços
      Sofia

  8. Sofia,
    este post está perfeito! “Pode ser muito doloroso ver o outro ser feliz e não estarmos por perto e não ser conosco.” Isso é verdadeiro em qualquer relação, na de mãe-filho, então, fica potencializado! Ter consciência disso é importantíssimo para o crescimento de todo mundo: nosso e das crianças.
    Muito 10!
    Beijo,
    Marusia

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