“Calem a boca” ou “Gente que incita culpa nas mães”

Trabalhar e ficar com os bebês

Bebê grita

Nossas avós, e todas as ancestrais, não tinham opção: tinham que ficar com os filhos em tempo integral. Nossas mães não tinham opção, não podiam ficar com os filhos. Tanto as primeiras quanto as segundas, agiram baseadas na cultura da época. Era um escândalo as mulheres que trabalhavam e deixavam seus filhos há muitos anos; era um escândalo as mulheres que abriam mão de suas carreiras por causa dos filhos há poucas gerações. Atualmente, nós teríamos opções: ficar ou não com os filhos não (deveria ser) é um escândalo.

Apesar disso, há nos diversos blogs, sites e salas de pediatras, um discurso sobre o “mal” de deixar pequenos bebês nos berçários. Pessoas que falam sem ter o menor conhecimento nem da realidade da maioria da população, nem de pesquisas sérias sobre socialização de bebês (assunto para um post futuro, quem sabe).

Há vários fatores que levam uma mulher a deixar seu pequeno pacotinho sorridente em um berçário. O principal é o de ter de pagar as contas. Simples assim. Vou dar o meu exemplo. Maridão ganhava R$800,00 quando meu filho nasceu. Eu ganhava o dobro. Meu aluguel em um bairro simples era de R$450,00. Precisa de ajuda pra fazer essa conta? A solução teria sido mudar para a periferia? Não investir na carreira dele, porque era somente o salário inicial? Eu não tinha saída, tinha contas pra pagar no fim do mês.

Outro fator é a personalidade da mulher. Algumas precisam trabalhar como uma forma de continuar a ser um pouco de si mesma. O trabalho funciona como terapia, como modo de continuar ligada à realidade, a si mesma. E essa mulher não é menos mãe por tomar uma decisão dessa.

O “Como cuidar de seu bebê”

Livros que falam de rotina, livros que falam pra deixar chorando, livros que falam em acalentar a todo momento. Livros e “especialistas” que falam. Um fala, outro adota, todos julgam o diferente (why, my god!?).

Crianças gritam

Só quem já teve um bebê pequeno consegue entender o que significa viver em função das necessidades de outra pessoa – que depende de você em tudo.

Cada mãe conhece seus filhos. Sabe o que é choro de fome, manha, cansaço. Toda mãe testa seus próprios limites para fazer o melhor para o filho. E aí vem o especialista na TV e diz que o que ela faz está errado. Ela lê em blogs e sites de maternagem que o que ela acredita não vale nada. Insegura, deixa de reconhecer o seu próprio bebê. Não tem mais certeza do choro, não sabe mais o que fazer para acalentá-lo, não entende mais se é cansaço ou fome.

Quando a mãe, segura, pede ajuda, aí, sim, tudo será melhor compreendido e, com certeza, melhorará a relação e a dinâmica na vida familiar. A gente sabe dizer: “Estou no meu limite, alguém me ajuda?”

A Amamentação

Outro dia li um texto muito bom sobre os benefício da amamentação – uma nota no Facebook: http://virou.gr/q7Dc5D . Uma das ideias que a autora defende é a de pararmos de idealizar esse momento.

“Especial. ‘A amamentação é um relacionamento especial.’ ‘Faça um cantinho especial para amamentar.’ Em minha família, refeições especiais exigem mais tempo. Ocasiões especiais significam mais trabalho. Ser especial é bom, mas é complicado, não é parte do dia-a-dia, e não é o que queremos fazer toda hora. Para a maioria das mulheres, a amamentação precisa se encaixar facilmente em uma vida agitada – o que acontece, é claro. ‘Especial’ é um conselho para desmamar, não para amamentar.”

Amamentação é difícil; no começo, pode doer muito, desgasta, nem sempre estaremos lindas, leves e soltas para alimentarmos nossa pequena boquinha faminta. As mães precisam saber disso para darem conta dessa realidade, para saber que não é só ela que sente raiva, culpa e desgaste.

Eu sou TOTALMENTE a favor da amamentação. Mas preciso dizer que livre demanda é ideal. Livre demanda é para quem pode dedicar-se exclusivamente ao bebê. Toda vez que minha pequena sente fome, eu a amamento. Mas eu não consigo satisfazer a necessidade de sucção dela no peito. Isso é irreal para mim e vai além do que posso.

Sou a favor da desmitificação da amamentação.

Para ir um pouco além, quando uma mãe decide – consciente – de que não quer amamentar seu rebento, ela não deixa de ser mãe por causa disso. Isso não a faz pior ou melhor do que ninguém. É necessário parar de julgar mães que tomaram decisões diferentes das nossas.

Os homens e o discurso

Perdoem meu palavreado. Eu não tenho pinto, por isso, têm muitas coisas ligadas ao universo masculino que não entendo. Por isso, não me intrometo. Se eu der minha opinião, será sem querer fazer com que se sintam culpados por serem quem são.

Homens não têm útero, não têm peitos. Não nos entendem. (Perdoem-me os homens que são exceções).

Alguns, intitulados como especialistas, dão opiniões que massacram nossa auto-estima e aumentam nossa culpa por sermos nós mesmas.

É fácil dizer a uma mãe o quanto ela faz mal a seu filho porque não o amamenta direito, porque não acalenta o seu bebê o suficiente, porque deixa-o em um berçário. “Mãe, você precisa se dedicar mais, seu filho precisa de você.” Mais?, ela pensa. Como assim? E tudo o que eu faço, então, não está bom? (Aposto que esses caras não fazem metade do que indicam. Apostos que vão a congressos e seminários regularmente, deixando as esposas sozinhas e enlouquecidas).

Se você tem babá e/ou diarista e/ou mensalista; se sua mãe, sogra, vizinha te ajudam integralmente; se o salário do marido paga todas as contas; se você não pira quando abre mão de tudo – até de si mesma – e assume a postura de mártir: não julgue quem é diferente, quem assumiu, por opção ou por necessidade, uma vida diferente da sua.

Quem me conhece pessoalmente sabe que hoje não trabalho, sabe que não gosto de me fazer de coitada, sabe que não tenho babá ou mensalista – vez ou outra, uma diarista. Sabe que eu não admito preconceitos e julgamentos.

Mães, gritem, por favor

Honestamente, eu enlouqueço com textos e índices e conselhos vindos de quem não sabe o que é real e julga aquelas que vivem diferente. Repletas de culpa, aí, sim, as mães passam a fazer o que REALMENTE é prejudicial para bebês e crianças: mimá-los demais, enchê-los de brinquedos e cacarecos desnecessários, perderem a paciência com as birras (porque a lógica é a seguinte: filho bravo porque mãe tá longe + mãe culpada = birra + brigas. Se a mãe está tranquila, consegue resolver sem partir pra agressão verbal ou física).

Na boa, não costumo falar isso, mas CALEM A BOCA!

8 pensamentos sobre ““Calem a boca” ou “Gente que incita culpa nas mães”

  1. Oiee,

    Ufa! Adorei!! Obrigada por desabafar por mim!!!
    Quando deixei meu emprego para ser aquilo que sempre quis: MÃE ouvi um milhão de críticas, me senti mal de depender do meu marido, me senti mal de gastar o dinheiro dele e confesso, isso ás vezes, ainda me dói…
    Outro dia, na festa do twitter, me senti a mãe madrasta da Branca de Neve qdo eu disse que deixei minha bebe chorando no berço pra aprender a dormir sozinha, milhões de questões vieram á minha cabeça: será que ela vai sofrer traumas qdo crescer? Será que ela chorava de medo e não de manha? Será? Será? Socorroooo!!!
    Cada mãe e cada filho é de um jeito, cada um deve ser respeitado, críticas não construtivas não são benvidas!
    Quer um conselho? NÃO OBRIGADA!!!!! rsrsrs

    Ameiiii!!!

    Bjos!

    Loreta #amigacomenta;)

    @bagagemdemae
    http://www.bagagemdemae.com.br

  2. Olha acho que importante e o que as mulheres deveriam aprender é seguir seus instintos, sempre vai haver alguém pentelhando ditado o que é certo e o que é errado, no fundo é ouvir e seguir o que dita seu coração.
    #amigacomenta

  3. Sempre tem alguem pra dar pitaco e fazer vc se sentir horrivel. Eu resolvi ser feliz pra poder deixar minha pequena feliz e depois nao culpar ela por nada. Minha mae sempre diz que deixou de fazer isso ou aquilo por minha causa. Acho um saco!
    oder deixar minha pequena feliz e depois nao culpar ela por nada. Minha mae sempre diz que deixou de fazer isso ou aquilo por minha causa. Acho um saco!

  4. Olá Sophia,
    não conhecia seu blog, mas adorei o post!
    Tenho navegado na chamada “blogosfera materna” desde que engravidei e, embora adore a maioria dos blogs, das dicas e de tudo mais, noto em alguns textos sempre um ar catequizador. E fico a me perguntar: De onde vem tanta certeza? Tanta convicção? Cada família tem uma história, cada mãe tem uma realidade. Meu Deus! Parece que para as pessoas sentirem segurança de estão fazendo certo, precisam negar tudo que os outros fazem de diferente, não é?
    Enfim, por essas e por outras, adorei seu desabafo e vou passar mais por aqui.
    Abraços!

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