A educação de cada um e os espaços preferenciais aos idosos, gestantes e deficientes

Mesmo tendo tido uma ótima educação e, modéstia à parte, sendo uma pessoa geralmente gentil, eu nunca tinha prestado muita atenção à questão dos espaços preferenciais – filas, assentos e vagas destinados aos idosos, às gestantes e aos deficientes. Provavelmente, a gente só se atém mesmo àquilo que vivenciamos.

Pois, bem!

Nos últimos meses, tenho passado por esta experiência dos espaços preferênciais. Primeiramente, com meu filho e sua perninha quebrada – e a necessidade do uso da cadeira de rodas -, e agora com minha gestação. Quando fiquei grávida do Cauê, também vivi isso, mas acho que só agora a revolta tomou conta de mim.

Quanto mais vou a lugares públicos, mais tenho observado o quanto esses espaços são desrespeitados. Eu não estou falando apenas de ônibus lotado ou mercadinho de bairro. Esses lugares são fáceis de “compreender” porque não há respeito – ou são comércios muito pequenos em que a quantidade de pessoas é muito restrita ou, no caso dos meios de transporte, estão tão cheios (e com um sistema tão falido) que não há trabalhador cansado – e irritado – que queira ceder lugar a alguém necessitado.

O que mais me indigna são lugares grandes, bancos, redes conceituadas, lojas que têm toda uma assessoria por trás para, supostamente, criar condições para que todos os clientes sejam bem atendidos.

Certo. Todas – ou quase todas – as lojas possuem aquela plaquinha de que pessoas em certas condições têm preferência. Ou têm um caixa dedicado somente a esses casos. Duas situações (ou talvez mais) me deixam indignada.

1a situação: Lugares que possuem essa plaquinha dizem que vc só precisa chegar ao lado do caixa para ser atendido imediatamente.

Pessoas, desculpem-me, por mais que me seja de direito, EU NÃO VOU FURAR FILA, a não ser que haja alguém educado o suficiente para dar lugar para mim. Quando chegamos junto ao caixa, as pessoas na fila olham como se houvesse um assalto.

Chega a ser ridículo, porque, afinal de contas, ninguém é filho de chocadeira, ou seja, TODOS já estiveram dentro da barriga de uma mulher ou, um dia, talvez, estarão grávidas, ou com suas esposas grávidas. Também é ridículo porque ninguém nunca sabe o dia de amanhã: vc pode tornar-se um idoso (já pensou se vc não morre antes?!) ou mesmo um deficiente físico. Quer dizer que todos são “imunes” a precisar de um espaço desses? As pessoas tendem a fingir que não estão vendo quem se enquadra em um espaço preferencial. É como se, de repente, todos os pescoços ficassem travados, ninguém nem olha para o lado, nem nos olhos: como se, ao olhar, houvesse o risco de haver um pedido.

Ao fazer uma reclamação – “Olha, seu gerente, não há um caixa preferencial” -, a resposta é mais ridícula ainda: “Todos os caixas estão orientados para atender primeiramente clientes com necessidades especiais. É só vc chegar junto a eles que será atendida”. O meu argumento “Me desculpa, mas não vou furar fila a não ser que o caixa me chame” tem a resposta “Fique tranquila porque os caixas estão orientados a chamá-la”.

Não, não estão. São muito raros os casos de um caixa bem humorado que decide chamá-la para ser atendida antes. Não, eles não estão muito preocupados. E quando o gerente nos coloca na frente, passamos a ser mal atendidas. Ridículo.

Essa é a situação que mais me irrita. Porque os locais acreditam que colocar um placa significa ter a lei atendida. A lei não é para ser usada como uma obrigação terrível. Na verdade, é a gentileza que deveria contar, a preocupação com outras pessoas que não estão conseguindo seguir a maioria. Se a placa está ali, mas não há um esforço para cumpri-la, qual é o seu significado?

2a situação: Lugares lotados que possuem somente um caixa à disposição – e a fila não-preferencial passa a ser mais rápida.

Olha que cena engraçada: vc no banco, no mercado ou em uma grande loja de departamento, grávida, ou idosa ou portadora de uma necessidade especial. Vc tem uma conta para pagar. Ou um saquinho de pão. Entra na fila. Sua fila demora mais – quer dizer, justo quem não pode ficar em pé muito tempo – e vc fica mais tempo em pé do que quem está na outra fila.

Mais uma vez, é a história da lei que “está sendo cumprida” apesar das pessoas estarem sendo desrepeitadas.

É certo, todos querem ganhar dinheiro, ganhar tempo, ir mais rápido. Mas precisa exagerar? Precisa dar um de esperto? Por que esses ambientes não oferecem condições verdadeiramente humanas para quem precisa? Por que quem está nessas filas não pensa na possibilidade de um dia passar pela mesma situação e oferecer seu lugar?

O que me revolta não é a minha condição, necessariamente, porque estou “apenas” grávida. Mas há muitos idosos e deficientes ignorados. Quando meu filho estava na cadeira de rodas, com a perninha engessada, eu já estava grávida (com a barriga um pouco visível) e as pessoas nos ignoravam ou nos tratavam como um estorvo. Ah, tá, desculpe-me por eu existir e estar em uma condição que o desagrada, infeliz da fila…

Quando é que vamos nos enxergar de modo mais humano, menos cifrado, menos egoísta? Quando será que as mulheres, por exemplo, tratarão outras mulheres (grávidas) como gostariam de ser tratadas quando nesta mesma condição? Será que vamos continuar ignorando que um dia, sim, vamos envelhecer ou que, às vezes, teremos que passar por situações difíceis, necessitando de tratamentos mais especiais?

Um desses lugares é a rede de lanches McDonald’s. Não há caixa preferencial e aqui em minha cidade, Ribeirão Preto, não há um atendente que tenha me dado preferência. Escrevi uma carta a eles e agora espero a resposta.

Segue a carta enviada à rede de restaurantes:

Gostaria de fazer uma crítica/reclamação a respeito do tratamento dado às pessoas portadoras de necessidades especiais. Não há nos restaurantes de vcs um espaço/caixa dedicado a elas. Há somente a placa e a orientação para que os caixas dêem a preferência. Para isso, é necessário que essas pessoas “furem” a fila, causando um certo constrangimento.
Estou grávida pela segunda vez, já estive com meu filho na cadeira de rodas, e, por mais que seus atendentes sejam orientados a nos chamar primeiramente, isso nunca aconteceu. São apenas adolescentes, iniciando a vida trabalhística, e nem sempre terão a maturidade necessária para tomarem esse tipo de atitude.
Gostaria de sugerir que, ao invés de placas e orientações, todos os restaurantes tivessem um caixa somente para essas pessoas, de preferência com cadeiras para aquelas que não conseguem ficar em pé.
Estou publicando em meu blog um texto sobre isso e farei sugestões de matérias à imprensa.
Muito obrigada,
Sofia

2 pensamentos sobre “A educação de cada um e os espaços preferenciais aos idosos, gestantes e deficientes

  1. Oi, Sofia!

    Muito obrigada pelo comentário e também pela inclusão nos seus links!

    Eu cheguei aqui completamente por acaso, nem sei como, e fiquei fisgada, passei a tarde inteira lendo… Adorei suas idéias e a maneira como as coloca no texto. Me identifiquei com muitas coisas também (por exemplo, com o texto acima – só uma vez até agora usei a prioridade no atendimento, na Renner, passando direto no caixa, e me senti furando fila, depois disso nunca mais tive coragem, rs)…

    Sempre passarei por aqui para acompanhar as novidades. E aproveito para desejar muita tranqüilidade na gestação da sua menina e muitas alegrias com seu menino.
    Beijos!

  2. A educação e boas maneiras estão em falta no Brasil. Pessoalmente acho que gravidez não sendo doença e sendo uma opção, não precisaria ser caso de ter lugar reservado, mas há pessoas idosas, doentes e cegas e estas nao tem escolha de suas condições. Quando vejo estas pessoas eu mesma levanto e chamo a pessoa ou peço para a pessoa que está sentada no lugar preferencial sair pois está na lei. O lugar preferencial em ônibus não é exclusivo e se não tem ninguém preferencial os outros podem usar.
    No caso de grávidas, acho que se ela está passando mal aí deve falar e pedir lugar. A educação tem que ser exercitada de todos os lados. Devemos ver o nosso lado e o dos outros também.
    Também é muito educativo ir na loja e falar com o gerente, muda muita coisa. Furar fila é uma coisa bem diferente de exercer um direito. Quando alguém fura fila a maior parte das pessoas fica calada e consente. Mas ao usar um direito não há por que ficar constrangido. Abraços,

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