A dor de uma mãe com as dores dos filhos

Desde que meu filho nasceu, há três anos, tenho lidado bem com seus momentos de dor. Para tomar vacina, eu que o levo. Pro médico examinar, eu é que o tranquilizo e outros momentos tenho agido de modo semelhante. Eu sabia que ele estava sofrendo, mas conseguia manter-me calma, pois também sabia que o sofrimento era momentâneo. (Exceto por um único momento em que ele engasgou, ficou sem ar e eu me desesperei dois anos atrás). Meu marido sempre sofreu mais, chorou, quis bater no médico/enfermeira e todos os que ajudavam meu pequeno chorar; eu sempre fui mais tranquila e chegava a ficar brava com o bem. Até sexta-feira passada.

Naquela bela manhã, eu saí com minha sogra. No shopping, recebi um telefonema da escola (que sempre nos gelam):

– Oi, aqui é da escola Waldorf, quem fala?

– É Sofia.

– Oi, Sofia. Você é a mamãe do Cauê, não é? Então, ele caiu, tá chorando um pouquinho. Tá tudo bem, ele tá no colo da professora agora, mais calminho. Não foi nada demais, aparentemente, mas como ele não consegue pôr a perninha no chão, achamos que seria melhor se alguém o levasse ao médico. Você acha que tem como buscá-lo?

Eu (bamba, segurando nas roupas penduradas da loja) respiro fundo:

– Tem sim, claro, mas tá tudo bem? O que aconteceu?

– Tá, sim, ele caiu, bateu a perninha e tá roxo. Como ele chora quando põe o pé no chão, achamos melhor te ligar. Mas venha com calma, tá? (Tipo, ela tava sacando que eu atropelaria metade do mundo no trajeto)

Lá fomos nós para escola. No caminho, fui falando para minha sogra (para tranquilizá-la) que é moleque, menino é assim mesmo, que não devia ser nada demais e blábláblá.

Quando cheguei na escola e o Cauê me viu, ele deu um berro e começou a chorar muito, de um modo que nunca tinha visto. Gelei. Fui até ele, peguei-o no colo e não quis soltá-lo mais, nem ele queria me soltar. Como estou grávida, todos tentavam nos convencer de que ele deveria ir para o colo da vovó.

Levei-o para o hospital correndo. Realmente, não tinha nada – apenas um galinho roxo no meio da canela. Imaginei que ele tivesse torcido o pé ou o joelho, qualquer coisa assim. O médico do plantão – que, por sorte, é um dos que eu mais gosto (obrigada, Dr. Álvaro) – nem quis pôr a mão para não judiar do meu mocinho, já o mandou direto para a radiografia. Também, por sorte, minha sogra estava lá e pode entrar com ele – já que eu também não poderia por causa da gestação. Ele não estava chorando, ele estava berrando, gritando de dor. E eu? Eu estava do lado de fora, sem saber o que acontecia e sem poder fazer nada.

Enquanto esperávamos a resposta, colocaram o filhote em uma cama. Eu consegui acalmá-lo, brincando e fazendo-o rir um pouco. Quando o médico chegou com a radiografia e cara de “é, não é exatamente o que imaginávamos”, gelei.

– Olha, é fratura. Não é fraturinha, é fratura mesmo.

(De costas para o Cauê, apoiei no médico, fraquejando, sabe, e meu olho encheu de lágrima.) Ele continua:

– Eu estou encaminhando vocês para o outro hospital onde está o ortopedista, assim ele analisa melhor se precisará somente de um gesso ou colocar pino.

Em um momento como esse, tudo o que se quer é abraçar alguém e chorar. Não porque seja uma tragédia. Não é, eu sei, há coisas muito mais graves e difíceis neste mundo. Mas porque dói muito ver a dor do filho e não ter muitas coisas a seu alcance para que passe, principalmente, porque a gente sabe que fratura é algo que dói por vários dias .

Respirei fundo, virei de novo para o bonito e exclamei:

– Vai ganhar uma bota!

O que havia de ser feito? Ele não podia ver como eu estava, pois eu sabia que ele contava com a minha força para ficar bem. Eu sempre digo que você sabe se a sua situação está feia pela reação da sua mãe. Se sua mãe tá chorando, desesperada, é porque a coisa tá horrorosa – eu não conseguiria ficar bem vendo minha mãe desesperada. Imagine os pequenos que tem na gente seu único apoio?

Os dias que se seguem vão, aos poucos, tornando-se mais tranquilos. No primeiro dia, ele reclamou bastante de dor e ficou bem quietinho. Hoje, três dias depois, já consegue se mexer bastante, arrumando-se sozinho no sofá em que está deitado. Consegue, inclusive, dormir de lado. Por isso, além da dor que senti ao vê-lo sofrer, estou sentindo muito orgulho deste meu pequeno loiro corajoso: não fica fazendo drama, chorando à toa, está tentando ficar bem e feliz, enfrentando o momento com muita força. Demais. Parece até bálsamo para um coração que ficou tão apertado!

2 pensamentos sobre “A dor de uma mãe com as dores dos filhos

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