Mulher & Mãe

Hoje, sou mulher.

Hoje, sou mãe.

Mas é recente todo este ser. Durante muito tempo, isso foi apenas uma sombra, um sonho, uma brisa qualquer.

Como todas as outras, não sou uma mulher qualquer. Olho no espelho e, apesar de me ver jovem, enxergo as rugas. Devia usar mais cremes, deviar usar maquiagem, devia cuidar mais de mim. Essa mulher refletida no espelho já chorou tanto, já gritou, surtou, desistiu, disse não, disse sim. Essa imagem não reflete a dor passada para aqui chegar. A imagem não mostra quantas vezes eu ouvi um não, quantas vezes eu fui e não fui querida, não mostra o caminho perdido trilhado até agora. No reflexo, não há a minha força bruta, não há a minha delicadeza; não há, nesse reflexo, metade da mulher que sou. Para o espelho, sou apenas mais uma.

Como todas as outras, não sou uma mãe qualquer. Sou única e bastante comum. Faço dormir, preparo comida e leite, leio histórias, observo meu pequeno dormir. Assim como outras mães, eu erro sempre, acerto às vezes, me sinto culpada, vejo o divino nos meus rebentos, grito de cansaço, busco por mim mesma em meio a tanto brinquedo, fralda, mamadeira. Sou a mãe que posso ser.

Antigamente, naquele tempo em que vivia os sonhos como reais, eu achava que era possível ser uma mulher perfeita, ser uma mãe perfeita. Como a maturidade ainda não fazia parte da minha realidade, eu acreditava que nenhuma noite seria cansativa, eu achava que era tangível viver todos os sonhos e fazer os outros ao redor felizes. Carregava comigo aquela arrogância de quem acha conseguir tudo diferente e melhor.

Eu não deixei de sonhar, apenas passei a desejar de forma mais modesta, mais possível, mais real. Eu fiz uma escolha, preferi deixar para os outros as grandes conquistas da humanidade e ficar para mim com minha família, meu lar, minha vida pequena e simples. Decidi querer deixar de ser lembrada por grandes feitos. Não acho que todos devam fazer o mesmo. Cada um faz suas próprias escolhas.

Se, hoje, sou mulher e mãe é justamente por causa dessas decisões tão íntimas, tão pessoais, mas que fazem de mim a Sofia que não vejo ao olhar para o espelho.

2 pensamentos sobre “Mulher & Mãe

  1. Sofia, gosto muito do que vc escreve já disse. Só não concordo quando vc diz que deixou as grandes conquistas da humanidade para os outros… Se cada pessoa se dedicasse ou ao menos se esforçasse para cuidar de si e da sua família como você se esforça, as grandes conquistas seriam construídas de pouquinho em pouquinho, dia após dia…😉 Acredito que vc esteja realizando seu grande papel diante do mundo… E que as suas conquistas serão muito grandes e relevantes para todos nós, por mais que, para olhares viciados, pareçam “pequenas coisas da vida”…😉
    beijos

  2. Seu avô tinha razão. Te conheço há tanto tempo, mas parece que a cada dia descubro uma nova Sofia com quem me identificar. Além do seu talento para escrever essas crônicas, que só por si é um convite a te acompanhar diariamente, você fala sobre coisas que, de tão escondidas, a gente nem quer ver, ou então algo que a gente pensa solitário e acha o máximo quando encontra alguém com quem compartilhar a mesma ideia. Isso faz com que a gente se sinta menos louca – apesar de vc já ter feito o meu diagnóstico hahahahaha. Bom, só pra falar que agora vc virou minha guru, a ponto de eu citar seu blog em conversas com outras amigas. Até a citação da Ju (“waldorfiana”) entrou no contexto hoje de uma conversa. Parabéns por ser o que é e não ter vergonha disso. Parabéns por nos fazer pensar sobre questões tão essenciais. Amo vc!

    Bjos

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