As verdades absolutas – ou a possibilidade de ser flexível

Sou bocuda, como diria minha mãe. Sou tagarela, linguaruda e todos os adjetivos para quem fala mais do que deve. Desde pequena. Sou daquelas que, quando percebeu, contou o que tinha prometido a si mesma que não ia contar para ninguém. Não tenho problema com segredo dos outros (viu, amigas, eles estão bem enterrados aqui!). Meu problema é com os meus, mesmo. Não só isso, tenho problemas com as verdades absolutas.

Sempre fui daquelas que dizia “eu nunca” e “eu sempre”… Quem me conhece, bem sabe. Sempre vou ser assim, nunca farei isso ou aquilo. E como todos que são assim, sempre tive que passar pelo constrangimento de ter de se explicar: “ué, mas você não disse que nunca…?” É, eu disse….

Sou capricorniana. Tenho um pai ariano com ascendente em áries (coitado, eu sei). Pra vocês terem ideia, na terapia, quem fazia o papel do meu super-ego era meu pai…. Absurdo, todas as decisões que eu queria tomar, via meu pai me falando um monte (como naquele episódio do Confissões de Adolescente que a menina vai pro motel e fica vendo o pai dela lá, alguém lembra?). Apesar de eu já ter aprontado muito – mas muito mesmo – nessa vida, tenho um lado que é muito duro comigo. Não há ninguém, nem mesmo o meu pai real, que seja tão rígido comigo como eu mesma. Acho que, por isso, sempre vivi com essas verdades absolutas.

Acontece. Sempre acontece, né? Acontece que conheci meu marido – alguém que não tinha super-ego até ser pai – e coloquei filho no mundo. Casar e parir são óóóóótimoooosssss para acabar com qualquer verdade absoluta. Igor e Cauê moeram todas as verdades que eu havia assumido nessa vida. Quando o Cauê completou dois anos e eu me casei, fiquei doente. Doido, né? Mas foi doida mesmo que fiquei. E foi muito bom, porque foi assim que eu descobri que não há verdades absolutas. Eu me lembro de uma vez, conversando com uma amiga sobre não querer mais dar aulas, ela me dizer: “Não tem problema mudar de ideia. Não precisa se sentir culpada. Depois, você pode mudar de novo, se quiser. Você pode ser mais flexível sem se sentir culpada.” Talvez ela não tenha ideia do quanto aliviou as minhas costas.

Pronto, eu entendi. Posso mudar de ideia. Posso ser flexível. Desde lá, venho tentando viver sem grandes verdades. Começando por mim mesma, passando pelo meu casamento, chegando a meu filho. Hoje, sou dona-de-casa, posso mudar amanhã. Para os relacionamentos darem certo, não há receita pronta (apesar de os ingredientes mudarem pouco), para os filhos serem bem educados, não há certo e errado – cada mãe tem o seu modo de fazer. Fiquei feliz. Deixei de ser uma péssima mãe, deixei de ser uma péssima esposa, deixei de ser dura comigo mesma.

Isso não significa que eu não acredite em valores absurdos. Acredito, sim, na verdade, no amor, na paz… acredito que esses valores devem sim comandar nossas vidas. É o modo como os vivemos que não precisa ser tão rígido, não é? Eu me cobro, também, por meu erros e busco ser alguém melhor. Só que agora não me jogo no triturador de cana.

Acho que minha verdade absoluta agora é ser possivelmente feliz.

4 pensamentos sobre “As verdades absolutas – ou a possibilidade de ser flexível

  1. E, então, o que é a vida se não um ciclo? Um começar e terminar, começar e terminar. E, no meio disso tudo, é que a vida vai acontecendo. Dia a dia, mês a mês. Mudando, alterando. Ontem você estava professora, solteira, sem filhos. Hoje, você está mãe, dona-de-casa, grávida, esposa. Amanhã, estará mãe de dois, esposa, e quem saberá fazendo algo profissionalmente? Porque a vida é assim, cheia de começos e recomeços, como todos os caminhos que escolhemos. Não há o certo e o errado, apenas lugares diferentes que eles nos levam. Cabe a nós escolher um e, se não gostar do destino, voltar atrás e pegar outra rota!

  2. Momento Waldorf:

    “O importante não é a perfeição com a qual conseguimos realizar o que deve provir da vontade, e sim que o que tiver de surgir nesta vida, por mais imperfeito que venha a aparecer, seja feito uma vez para que haja um começo.”
    Rudolf Steiner.

  3. Oi Sofia

    Eu achei maravilhoso seu texto.
    Acredito que a vida é um ciclo.
    Um começar e terminar e um começar … e terminar… e…
    Podemos começar de novo desse jeito e de outro… Não importa.
    A vida é larga.

    Parabéns pelo seu texto.
    Adriana

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