O que faltou dizer aos meus avós

Acho que tive sorte, fruto desse mundo moderno, tive três avós e três avôs. De todos, apenas dois avôs estão vivos. Nos últimos tempos, não só por causa do Dia dos Avós, tenho pensado muito em todos eles e nas coisas que eu gostaria de ter dito e não disse.

A minha avó paterna chamava-se Edna e foi-se muito cedo, quando eu ainda tinha 5 anos. Eu não me lembro da sua voz ou de suas mãos. Apenas me lembro de sua casa com móveis verdes, de um episódio em que quis comer batata crua (e ela deixou). O ano passado, em uma consulta, a médica me disse que era colega de turma de minha tia e que, por isso, frequentava a casa de minha avó, definindo-a como mais delicada que pétala de flor. Além disso, era pianista e grande incentivadora das artes aqui em minha cidade. Para ela, não faltou dizer, faltou conviver. A ela, eu diria para não ter ido embora tão logo, porque tenho certeza de que pessoas assim aliviam nossa pesada existência.

Minha avó materna chama-se Vera. Com ela pude conviver muito mais, que morreu quando eu tinha 11 anos. Doce e preocupada, minha lembrança de “vovó” nada se assemelha ao que tinha sido: uma mulher que, na década de 60, enfrentou a sociedade sendo desquitada e usando calça jeans. Alguns anos mais tardes, ao conhecer meu avô Pepe, foi morar na Amazônia e tinha como sonho morar em uma canoa. As minhas recordações remotam a uma senhora típica: fazia lanches deliciosos para nós à tarde, ensináva-nos a costurar, tricotar, leváva-nos à catequese, impedia que meu avô nos batesse. Como eu estava chegando à pré-adolescência, eu era chata, muito chata. Não tratava-a tão bem. Hoje em dia, pego-me sempre pensando em quanto ela iria adorar meu marido e meu filho. Ela era professora de corte e costura, então, cada vez que ligo minha máquina, penso “vovó, queria tanto que você estivesse aqui, me ensinando”. A ela faltou dizer muita coisa, não só que eu a amava demais, mas, principalmente, faltou dizer “perdão” por todas as vezes em que não enxerguei o seu amor.

Tive uma outra vó materna. Vovó Mari era madrasta da minha mãe, apesar de ter quase a mesma idade. Quando eu nasci, minha mãe me ensinou a chamá-la de vó, mesmo tendo tios da mesma idade que eu. Com essa, pude conviver mais tempo. Bahiana arretada, mulher que enfrentava a vida – ela era dona-de-casa e muito brava, levava meus tios (e meu avô)  firmemente. Ela me ensinou a bordar, a ter garra, a ser firme. Em 2002, minha família teve um acidente de carro e, quarenta dias depois, ela morreu no hospital. Minha última lembrança é dela no hospital, sem poder falar, apenas escorrendo as lágrimas. Ontem, nasceu seu primeiro neto. E como eu queria que ela estivesse entre nós, porque ela não tinha nem 50 quando morreu. Queria que ela estivesse no meu casamento e queria ouvi-la reclamando de várias coisas. A ela faltou dizer “te amo”. Com o jeito firme, acho que nunca pude contar a ela quanto eu a considerava e a amava.

Meu avô materno, seu Nelson, foi uma descoberta. Quando pequena, nós íamos na sua casa para brincar com meus tios (que tem nossa idade) e apanhávamos muito com a bagunça. Sempre foi mais caladão, na dele. No acidente, ele teve várias complicações posteriores, inclusive perdeu a perna direita – por isso, nós o trouxemos para casa para poder cuidar melhor dele. Durante alguns meses, moramos eu, ele e minha mãe. Foi surpreendente, ele estava mais falante, mais amoroso, chorão. Seu Nelson me contava várias coisas da sua vida, sempre provocando minha mãe com histórias da sua mocidade. Nos aproximamos tanto que eu sempre dizia o quanto o amava e o quanto ele era importante. Em 2007, eu levei meu pequeno, com pouco mais de um mês, para ele conhecer. Em janeiro de 2008, ele se foi. Acho que disse a ele tudo o que precisava, mas sempre repito, quando penso nele, “vô, que saudades!”

Meu outro avô materno, vovô Pepe, é padastro da minha mãe. Mesmo depois que minha avó faleceu, continuamos sempre pertinho dele. Italianão, daqueles baixinhos, narigudos e invocados. Apanhei taaanto dele na infância que, durante a adolescência, nós só brigávamos. Mas a vida é muuito sábia. Durante o período em que tive que cuidar da minha mãe de perna quebrada e do meu avô Nelson doente, quem foi que estava do meu lado todos os dias? Era o vovô Pepe. Nunca vi alguém assim. Ele fazia por nós coisas que duvidava: dormia em casa para descansarmos, preparava almoço, cuidava do meu vô Nelson. Sem ele, não sei como teria aguentado. O danado tá bem vivo. Faz caminhadas todos os dias, come muitas frutas. Com seu sotaque bem forte, reclama muito do Brasil – apesar de amar este país. Não há quem faça uma massa, principalmente um gnoche melhor que o dele. Acho que falta eu ligar mais para ele, parar de ficar só lembrando e telefonar, pedir para ele vir passar uns dias aqui em casa. Falta dizer que eu tenho saudades!

Meu avô paterno, conhecido como Dr. Dalmo, é uma figura rara, raríssima. Com 80 anos, ele navega na internet, escreve livros, frequenta a natação, está ativo e muuuito lúcido. Com seu jeito sério, ele comanda correntes de emails familiares, fazendo piadas e provocações com um humor britânico. Duas vezes por semana, encontra-se com os filhos – um dia é para ter conversas sérias, saber como todos estão e o outro é para diversão, para sentarem juntos, curtindo. Ele não fica dizendo “eu te amo” o tempo todo, mas seu jeito de cuidar da família toda é a maneira que encontra para expressar seu amor. Acho que falta eu dizer tantas coisas a esse avô querido. Ele não imagina o quanto eu o amo. Ele não sabe da importância que tem as lembranças das nossas brincadeiras de quando eu era bem pequena. Ele não sabe oquanto eu tenho medo de perdê-lo. Talvez por agora eu ser adulta, tenha perdido muito da minha espontaneidade e não sei como dizer tudo isso a ele…

Acho que não preciso dizer mais nada… preciso?

Outros posts sobre avós:

http://blogdati.com/2010/07/26/boa-noite-vovo/

http://www.samshiraishi.com/vovo-unica-e-insubstituivel/

http://recomadres.blogspot.com/2010/07/dia-dos-avos.html

Este texto participou da blogagem coletiva do blog Mulher e Mãe em 09/2010. Vai lá que tem mais textos sobre avós!

9 pensamentos sobre “O que faltou dizer aos meus avós

  1. Nossa, Sô. Eu estou me acabando de chorar! Que delicadeza, que sensibilidade, que doçura para escrever….

    É impossível ler sem fazer um balanço das minhas próprias relações….

    Obrigada por esse post tão especial.

    Adoro seu blog!

    Agora deixa eu enxugar as lágrimas, ligar pra minha vózinha e voltar pro trabalho!

    Bjos, Calu

  2. Oi Sô… nossa adorei o post de h, ainda mais com esse tema….
    vc sabe como meus avós são importantes p/ mim…..
    e tbm queria dizer que como convivo com vc desde criança.. ou seja 20 anos…pude reviver cada palavra sua do texto….adorei poder voltar ao tempo e lembrar de coisas tão lindas…
    =)

  3. É a mais pura verdade. A gente cresce e não consegue mais dizer o quanto amamos as pessoas. Daí elas se vão e a gente fica se remoendo.
    Aprendemos tanto com nossos avós… e eles aprenderam tanto conosco! Agora ensino para meu filho a conviver com essas figuras mágicas que deixam a gente fazer quase tudo.

    Bjks

    Diiirce (Milene)

  4. Email que meu avô Dalmo me enviou:
    CHILDREN – Não creio que precise apresentá-los a Sofia, pois todos a conhecem bem…Conhecem?, duvido eu ….ela foi, é e sempre será uma surpresa para todos os avós, quer no sentido mais amplo (dos que ainda vivem e dos que já se foram) ou naquele sentido restrito (vó Edna e vô Dalmo) daquele que aqui relata. Tivemos conhecimento, vó Edna e vô Dalmo, de que Sofia vivia (no útero materno com a atenção e ansiedade também do pai), por conta de carta que nos chegou quando vivíamos em pequeno apartamento em uma espécie de guest house da Universidade de Londres. Não tínhamos telefone e nos “balançamos” para apartamento de vizinha que tinha (telefone). A distância devia ser de uns cem metros entre uma casa e outra! Que trecho longo…e falamos: e agora?. E agora é saber que a avó tinha 44 anos de idade e o avô cinco anos mais velho..sem fazer cálculo de quantos anos mais jovens eram os pais da Sofia. E então…serenos retornamos ao país em fins de 1979. Serenos? Tá bom, vou assumir como tendo sido assim…Vai que não muito mais distante da chegada ao Brasil, em dia de domingo, recebemos chamada (telefone já então disponível) de que a mãe da criança ia para o hospital e para lá e (de novo!) nos “balançamos” em viagem de ônibus e noite já era quando chegamos ao hospital e se discutia como seria o parto (de cócoras?) com as observações de que só o lado feminino (ou seja, a avó) tinha condições de fazer. E daí vai que imagens fortes tenho de Sofia como companheira de brincadeira na cama dela de que uma foto daquelas me é muito gratificante. Os pais e a pequena moravam no Ypiranga a sempre que tinha espaço em minha agenda em São Paulo ia visitá-los, casa com jardim lateral etc.E ela surpreendia. Pais tão jovens e criança mais ainda. Enfim…para não cansá-los…e para que não tomem esta como “motivo” para uma “daquelas rodadas” de troca de emails Sofia cresceu, mas não teve a grata dádiva de conviver com a vó Edna e de quando em quando Sofia me pergunta como era a vó Edna? em detalhes, de que parte ela aqui relata. Quando quiser, estou à disposição ! Preciso de ambiente tranqüilo e vou socorrer-me de álbum ou coisa do gênero. Mas a indagação específica deve ser dela. Sofia moça se tornou e “alguns” pequenos problemas causou…mas então a voz feminina (ver supra) não podia sussurrar aos meus ouvidos. Saber que Sofia estava grávida, ta bom, não vou repetir o acima dito quando estávamos em Londres, afinal eu havia passado da condição de avô para (bis)avô. Mas a emoção ainda era a mesma e lá fomos para o hospital (como será o parto etc) em noite de grande agitação no noticiário :afinal nós viemos aqui para assistir o nascimento do Cauê ou lamentar o desastre…? (sem ofensa aos demais que não tinham o mesmo envolvimento específico que nós) Daí vai que a discussão de como seria o casamento da Sofia (e seu generoso – veio a revelar-se – marido Igor) foi algo que movimentou algumas de nossas reuniões (uma delas na classificação acima apontada) . E foi uma coisa emocionante e nem cumprimentá-la pude por chorar convulsamente (podendo atrair atenção e provocar cochichos do tipo “aquele é o AVÔ da Sofia…coitado e com aquela black tie tão estranha..”.). A reorientação recente da vida da Sofia é exemplo do que disse na primeira linha desta mensagem. Conhecem?, duvido eu…E aí está ela homenageando com muita sensibilidade essas figuras “meio esquecidas” que são os avós. Não fossem a precocidade da Sofia e a relativa longevidade de alguns avós (não em sentido amplo) não teríamos nos permitido com a premiação (para nós, avós em ambos os sentidos) de dizer: esta é a Sofia que nos emociona e surpreende. Beijos a todos que essas palavras possam alcançar. Vô Dalmo.

  5. Pingback: Blog da Ti » Blog Archive » Avós na rede 2.0 e no coração

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