De como cheguei onde estou

Quando engravidei, há pouco mais de três anos e meio, eu ainda era uma garota cheia de ideais que acreditava que o mundo precisava de mim.

Nada como um choque de realidade, não?

Pois bem, fazia apenas um mês que namorava e eu mal conhecia meu marido… Eu já morava sozinha, trabalhava, pagava minhas contas. Tinha 25 anos. Ele ainda morava com os pais e mal conseguia pagar as parcelas do carro. Tinha 27 anos.

Decidimos não nos casar por causa da gravidez. Se um dia acontecesse, seria por amor.

Logo nos primeiro meses da gestação, o véu da ilusão começou a cair e eu a me desesperar, convencida por minhas verdades. O homem pelo qual eu me apaixonara estava muito distante do que ele era no dia-a-dia.

Dois meses antes de meu filho nascer, passamos a morar juntos. Que desafio… aprender a conviver com o outro e ainda ter de aprender a ser mãe… Época muito, muito difícil em nossas vidas. Eu nunca estava satisfeita, só conseguia enxergar os defeitos, os problemas. Só sabia me lamentar pela escolha que tinha feito. Meu marido também não conseguia encontrar em mim a menina tão feliz e serelepe que o fez querer namorar. Estávamos muito frustrados. Hoje sei que tinha muita coisa que nos mantinha juntos, mas nós acreditávamos ser nossa única motivação nosso filho – tão lindo, tão pequeno, tão nosso…

Eu acreditava em um homem ideal… achava que existiria um ser mais próximo das minhas crenças, da minha educação, do meu modo de viver. A vida que tinha não era a planejada: aquele homem que escutava as mesmas músicas que eu não acreditava no mesmo tipo de educação, não tinha a mesma formação, não entendia minhas ideias. Deveria haver neste planeta alguém que pudesse compartilhar disso tudo comigo.

É engraçado como nos prendemos a certos ideais tão distantes do real, não é? E como é difícil enxergar a realidade…

Enfim, tínhamos brigas e acertos, mas nunca terminamos. Quando meu filho tinha seis meses, nós o colocamos em um berçário para eu poder voltar a trabalhar. Voltei como nunca. Cheia de energia, ideias, abraçando todas as causas. Sou professora de L. Portuguesa e fui assumindo várias salas. Quando me pergutavam se eu não tinha dó de meu pequeno, eu respondia que ele deveria aprender que tudo na vida não é do jeito como gostaríamos. Na verdade…

Na verdade, eu tinha me esquecido de qual era o meu maior sonho na infância. Quando me preguntavam o que seria quando crescer, eu respondia “Quero ser mãe”… Eu era mãe, cuidava bem do meu filho, mas ia deixando certos detalhes importantes de lado, como “atenção”, “presença”…

No ano passado, ano do nosso casamento, assumi duas escolas e passei em uma faculdade pública. Durante o dia dava aulas, à noite estudava Pedagogia. Curtia meu marido e meu filho nos finais-de-semana. Aos poucos, fui vendo tudo ficar distante – minha família tinha deixado de ser uma prioridade. Fui ficando cansada de tudo.

No mês do meu casamento, comecei a ter pensamentos muito sombrios. Achava que morreria por qualquer meio e que não conseguiria me casar: árvores caindo numa tempestade, acidentes de carro, gripe suína. Ao mesmo tempo, por causa das férias escolares, percebi o quão distante eu estava do meu filho. Ele não gostava de vir no meu colo, não me tinha como um porto seguro quando sentia dor, fome, medo…

Venho de uma família onde todas as pessoas das gerações anteriores, incluindo bisavós e tios, separaram-se. Minha irmã já entrou nesse número. Pode parecer mera coincidência, entretanto, o que se vê é um grupo enorme de pessoas que trabalham muito, dedicam-se de alma à carreira e às causas sociais, mas não dão conta dos problemas dentro de casa. Quando falei que gostaria de casar tradicionalmente – véu e grinalda, festa simples para os amados – a reação foi imediata: “Para quê?”

Por outro lado, meu marido vem de uma família totalmente oposta. Relações extremamente complicadas que nunca se desfazem. Casamentos longos, mesmo que problemáticos. Dedicação total à familia e parcial às próprias ambições. Quando ele falou de casamento, ouviu: “Vejam quanto vai ficar e vamos ver com quanto vou poder ajudar”.

Não dá para condenar nem uma família nem outra. As duas nos trouxeram até aqui e fizeram o melhor que podiam para que fôssemos pessoas íntegras, cada uma do seu jeito. A questão é que eu tive um choque…

Depois de três dias da linda cerimônia de casamento, durante a lua-de-mel, tive o primeiro ataque de pânico. A partir daí, as coisas só pioraram – vieram agorafobia, depressão, vontade de morrer. Precisei me afastar do trabalho, passei meses na cama, sem conseguir sair direito de casa. Dor, angústia, escuridão sem fim.

Quem estava ali ao meu lado? Quem me deu forças, me suportou, me ofereceu tudo o que podia? Meu marido. Aquele homem que eu condenei tanto, que briguei tanto, era ele que estava ali. Tudo em que eu acreditava tinha perdido o sentido. De que valia trabalhar tanto pelos outros? Como eu poderia ter tantas certezas sobre um casamento ideal? Como conservar uma família?

Muuuuuita terapia, muito choro, muita dor. Quem eu cria ser até aquele momento, não podia mais existir, pois me sufocava. Percebi que aqueles valores não eram meus e eu tinha que encontrar as minhas próprias verdades. Eu não precisava ser o orgulho acadêmico da família, eu não precisava ser outra senão eu mesma.

Sou caseira. Gosto de cuidar da minha família, passar bastante tempo com meu filho. Gosto de ver minha casa arrumada e meu marido feliz. Gosto de artesanato: bordar, pintar, costurar… Gosto de dedicação. Sou alguém que gosta de deixar a casa aconchegante.

Parei de trabalhar e agora dedico-me à minha família.

Isto não significa que nunca mais vou trabalhar ou que todas as mães deveriam seguir por este mesmo caminho. Apenas significa o que sou. Não quero mais ser radical. Não há verdades absolutas, somente valores em que acreditamos.

Hoje sinto que aquela menina cheia de ideais cresceu… Agora sou mulher, dona-de-casa, dona DA casa, DONA DE SI MESMA.

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8 pensamentos sobre “De como cheguei onde estou

  1. Sô, que bom que a gente percebe nossas aptidões e vocações tão cedo, não é mesmo? E que bom que conseguimos enxergar que a vida é cheia de ciclos. Essa é você nesse momento. Ontem era você com a cara no trabalho. Amanha será você planejando uma grande viagem. E assim por diante.

    O mais legal de tudo isso é perceber que, em cada fase, devemos sempre ter em mente que estamos nos respeitando e fazendo o que nos deixa felizes.

    =) Te amo, amiga, muito.

  2. Oi Sô.
    Vi tudo isso de perto e agora vejo minha amiga mais de perto ainda.
    Espero que você se encontre cada vez mais com você, comigo, com sua família e com quem mais quiser.
    Grande beijo.

  3. Não é preciso ser jovem … não existe idade para crise, para questionamentos, para dúvidas do que realmente queremos ou gostaríamos de ser… estas dúvidas sempre farão parte dos seres humanos.
    O importante é que quando ela existe tenhamos alguém ao nosso lado que também perceba e queira ficar para ajudar e apoiar… o Igor é uma pessoa excepcional assim como você, por isso estão juntos.
    A sua famíia é muito linda e o amor de vocês transparece…iradia…
    Amo vocês…
    beijo enorme

  4. Sô, nem sei direito o que comentar… não consigo elaborar em palavras todos os sentimentos que as suas palavras e a sua vivência despertaram em mim… só sei que estou pensando, pensando muuuuito na minha vida a partir do que li. Obrigada por compartilhar tudo isso… Saudades, amiga! Bjão.

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